quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

get stuck to get free

O corpo era muito mais lento e pesado. Voltar àquela cidade, àquele lugar depois de tantos anos, trazia uma nostalgia grande demais para ser engolida em um pedaço só. Tudo estava tão diferente que achou estranho o sentimento tão confortável e íntimo. Lembrou das distantes férias de verão, do passeio que eles fizeram no dia nublado pela beira do rio e, de repente, as pernas o levaram para o passado. Sentiu algo quebrando dentro do peito, deixando vazar um líquido antigo e valioso, há tempos guardado. Vazou pela garganta e pelos olhos. Olhou para frente e a viu caminhando com as mesmas roupas, ouviu a risada leve e sentiu a mão puxando a dele, na pressa de chegar logo ali.

Não sabia quando foi que passou a ter tanto passado e tão pouco presente. Nem quando se perdeu e parou de sentir o mundo. Talvez era por isso que sempre tivera tanto medo de envelhecer. Era o receio de morrer antes do corpo, repetindo todos os sentimentos que já teve sem nunca criar um novo. E quanto mais continuava seguindo o caminho de anos atrás, mais queria sair dele. Só que era claramente impossível, porque aquela sensação, aquele desabafar sozinho era tudo o que ele tinha, era tudo que o tempo tinha permitido que ele levasse consigo. Era assim que viveria daqui para frente. Sem ela e sem ninguém, ele ouviria aquela música até que a natureza terminasse o trabalho dela.