quarta-feira, 8 de outubro de 2014

you and me

Com angústia, olhei para ela. A porta já estava fechada, eu não precisava mais suportar as pernas queimando. Simplesmente soltei o corpo e caí de joelhos. Apertei firme o cabo da adaga tentando respirar, só que tudo era muito. Muito cansaço, dor, ansiedade, alívio, amor. Beirava o impossível realizar qualquer trivialidade com a cabeça e o coração tão selvagens. Acima de tudo, minha visão submersa e distorcida me isolava ainda mais da consciência.

Desesperada, olhei para ela e agarrei a realidade mais uma vez. Todas as dúvidas, que ecoavam em mim, silenciavam quando eu lembrava de tudo que vivemos. Ela era meu porto seguro, minha protetora, minha sanidade.

E quando eu finalmente me sentia retomando o controle de mim, eu a vi desabar. De olhos fechados, ela escorou as costas na porta colossal e escorregou pela madeira até sentar no piso de pedra. O rosto dela, brilhando vermelho, me fez reviver o momento que as pedras odiosas voaram em nós, lembrar meu medo. A impotência me envolveu, senti meu rosto quente pelas lágrimas mudas. Ela abriu os olhos, olhou para mim e desenhou um sorriso cansado na boca. Impossível! Por que ela parecia tranquila naquela situação tão extrema? Comecei a descarregar todo meu instinto de defesa. "Você vai morrer, Ivy! Por que você insistiu?! Você sabia! Você sabia que a gente acabaria assim! Tudo isso é culpa sua!" Não consegui firmar mais a voz, parei para não sufocar e desfazer o nó na garganta antes que ele ficasse cego. Meu peito estava apertado. Falar aquilo e me escutar me machucou, mas era a verdade. Eu tinha tudo antes de tê-la. Agora, eu corria o risco de perdê-la, a única coisa que me restava. "Por que você precisa comprar briga com todo mundo? Por que você precisou comprar briga com o mundo?"

Ela tossiu e o sangue da garganta maquiou os lábios. Ela sorriu novamente e me olhou com ternura, de certa forma me dizendo que ela abandonaria a vida a qualquer minuto. Meus olhos se encheram, nada mais fazia sentido. Eu só queria me entregar, parar de jogar aquele jogo, acordar e estar em um lugar tranquilo, com ela em meus braços e um futuro feliz pela frente.

Foi quando Ivy respirou fundo, apoiou o braço na perna e se levantou. Eu ouvi os passos em minha direção e vi a silhueta inundada do corpo dela. Ouvi quando ela se ajoelhou do meu lado e ouvi quando ela suspirou relaxada. Fez um carinho gentil no meu rosto e me pediu desculpas, repetidas vezes, e me pediu para parar de chorar e ouvir. "Nunca foi minha intenção comprar briga, nem te arrastar para essa vida de fuga. Eu simplesmente quis me dividir com você, sem me segurar. Eu precisava viver o mais intenso que eu pudesse, aproveitar cada pequeno detalhe nosso. Porque quando você apareceu, eu não sabia que poderia experimentar os sentimentos que eu tive, nem sabia que me faria tão bem." Ouvindo aquilo, confiei de novo. Meu medo não diminuiu, mas meus atos recentes faziam sentido. "Mylla, a gente já conquistou muito mais do que esperavam de nós. Eu estou saciada. Diferente de você, eu não quero ser perpetuada na memória. Já usei tudo que queria desse mundo. A vida termina mais cedo ou mais tarde, e não me arrependo se a minha terminar em breve. O que eu tive já me valeu a pena." Ela então me abraçou forte e com a voz abafada falou: "Obrigada por tudo que você me deu. E por me fazer sentir amada."

Então chorei mais, dessa vez de uma tristeza reconfortante. Minha admiração por ela era gigante naquele momento e eu tive ainda mais sede por nós. Ivy me deu beijo macio e ferroso nos lábios, depois se levantou e caminhou até a janela. Viu as tochas no horizonte, se voltou para mim e terminou: "Não adianta mais fugir, nem há nada que possamos fazer. Eu quero morrer lutando ao seu lado... E te proteger até o fim.  Se fosse numa outra época, num outro lugar, conseguiria sonhar e imaginar um futuro diferente. Mas aqui e agora não existe sonho, eles nunca entenderão nós duas. Estamos sozinhas... Somos apenas você e eu... Contra o mundo."