sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Edge

Ela começou a fuçar a bolsa dele. Abriu o zíper, descompromissadamente, enquanto ele conversava com os amigos logo ali. Depois disso, puxou a bolsa pela mesa até que estivesse bem pertinho dela. Levantou a parte de cima, olhou para os objetos dentro e pegou o estojo. Abriu e encontrou um estilete, com a lâmina embaçada de grafite dos lápis apontados. Ele ouviu o barulho do metal correndo e se virou. Ela se levantou enquanto ele vinha matar a curiosidade. Ela virou o estilete, lentamente levou a lâmina contra o pescoço dele e fez uma leve pressão. Ele a encarou sem medo e durante alguns segundos nenhum dos dois se moveu. Ele começou a forçar o pescoço para frente e aproximar o rosto dele do dela. Ela ficou surpresa e apreensiva, talvez ele se machucasse, mas ainda assim ela queria tentar pará-lo, ele estava perto demais. E continuava se aproximando. Quando os lábios dos dois estavam quase no toque, ele parou. Olhou o fundo dos olhos dela e levantou a mão. Ela sentiu um toque quente no rosto e a única cor do mundo era a branca. Ela estava leve e o coração doía. Ela piscou e acordou deitada em um campo verde. Se levantou e tentou achar a consciência, mas tudo que encontrou foi o Sol confortante contra a fria brisa que acariciava a grama silvestre. Achou também uma árvore de tronco largo e raízes pendendo ao ar livre, no limiar entre estar na terra e voando no precipício que abraçava todo o campo. A árvore mal conseguia se manter ali, ou até maestralmente bem, no entanto não se livrou de começar a cair junto com toda aquela ilha de terra cercada de ar por todos os lados. A garota sentiu o estômago entendendo a queda antes da mente. A gravidade, cruelmente indistinta, guerreou a terra e venceu, derrubando tudo inclusive a sensação de conforto de segundos atrás. O oceano abaixo então se abriu e cedeu espaço para o penetra pesado, reclamando ondas gigantes e para longe. A garota se segurou na grama, a única crina do imenso cavalo descontrolado, enquanto um raio partia as patas e a cabeça do animal sem vida. Meses se passaram, os braços se tornaram cidade de cãimbras e se moldaram em estátuas sem músculos flexíveis. O cabelo dela agora era a grama, as pernas eram raízes e de repente ela se viu florescer. Começou a crescer e se tornar tão parruda que conseguiu erguer novamente toda a ilha enquanto se alimentava do ar, da água e do solo. Se tornou uma árvore imensa e finalmente alçou vôo. Venceu os medos, as dores, as fraquezas e a gravidade. Piscou e olhou no fundo dos olhos dele. Ele afastou a mão do rosto dela e deixou que ela visse o sangue escorrendo do pescoço. Ele sujou a mão com o próprio sangue e espalhou na testa dela com um gesto descuidado. Ela se sentiu aquecida mais que o sol e teve certeza de que todas as certezas eram medíocres. Sentou na mesa. O ferimento se fechou lentamente recolhendo e bebendo todo sangue expelido. Era um pescoço saudável e limpo, sem qualquer vestígio, nem sangue, nem grafite. Era o crime perfeito. Ela seria eternamente jovem e bela.

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