quinta-feira, 8 de maio de 2014

Apenas um de dois

Ergueu a mão para frente e apontou o dedo para ele. Se pudesse, atiraria toda raiva acumulada pela ponta do indicador ereto. Fechou a expressão e converteu todo sentimento em uma voz pesada e cruel:

- Eu já não tenho interesse algum em te ouvir. Você se repete tanto que nem sei se tudo isso que fala é pra mim ou pra você mesmo.

Ao ouvir isso, apertou firmemente o cabo da arma na mão. Quis apontá-la para frente, mas desconfiava que, se deixasse isso acontecer, não conseguiria  se conter apenas na intimidação. Respirou e se preparou para falar, em vão. Novamente a voz tenebrosa vibrava nos tímpanos.

- Não se dê o trabalho de jogar na minha cara o que é o certo pra você. Estou cansado dessa filosofia covarde que vocês insistem em chamar de honra. E é por isso que eu vou embora.

- Você não tem esse direito! - engatilhou a agulha da arma e pousou o dedo no gatilho.

- Você sabe que eu não vou desistir. E eu sei que você tem que me matar. Nada que eu falar vai abaixar esse seu escudo de certeza. Eu vou me virar agora e sair por aquela porta. Não sei o que você vai fazer quando eu me afastar, só entenda que o que quer que aconteça, esse é o momento em que vamos resolver de uma vez por todas essa merda - recolheu o braço, virou de costas e ensaiou o primeiro passo.

Ouviu a arma se erguendo atrás e se posicionando em mira mortal. A vontade na garganta era de gritar o mais que pudesse, toda insatisfação acumulada, e acordar todos ao redor para o que ele era capaz de enxergar. Cerrou o punho ao lado do corpo com tanta força que o braço tremeu. Socou o topo da mesa mais próxima e continuou o caminho até a porta.

- Você é um moleque! Só quer fazer o que tem vontade! Mas o mundo não é assim. Você vai apenas fugir mais uma vez. Pra onde você pensa que vai? Você acha que tem lugar nesse mundo pra alguém como você?

As palavras de reprovação mais uma vez nutriram a raiva interna. Continuou andando, faltava pouco. Mais um passo e atravessou a porta. Virou-se agressivamente, socou descontrolado o batente e bravejou:

- Você não vai atirar! Porque apesar de todos te acharem o homem que deu certo, no fundo você sabe que eu sou melhor que você. Você simplesmente não aceita ver que eu tenho coragem de seguir minha cabeça, enquanto você tenta desesperadamente não falhar com os outros. Eu estou exausto de me importar com vocês e ter que engolir que ainda assim não tenho valor algum pra esse grupo. Acontece que eu descobri que eu não quero tentar ser o que vocês querem que eu seja, eu só quero viver com minhas escolhas. Avisa pro nosso pai que ele falhou com os dois filhos, e que tudo que ele construiu é apenas um grande vazio. Ninguém é realmente forte se não entende pelo menos um pouco de si mesmo. Adeus, irmão.

Virou-se e saiu, e viveu sozinho.