quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

get stuck to get free

O corpo era muito mais lento e pesado. Voltar àquela cidade, àquele lugar depois de tantos anos, trazia uma nostalgia grande demais para ser engolida em um pedaço só. Tudo estava tão diferente que achou estranho o sentimento tão confortável e íntimo. Lembrou das distantes férias de verão, do passeio que eles fizeram no dia nublado pela beira do rio e, de repente, as pernas o levaram para o passado. Sentiu algo quebrando dentro do peito, deixando vazar um líquido antigo e valioso, há tempos guardado. Vazou pela garganta e pelos olhos. Olhou para frente e a viu caminhando com as mesmas roupas, ouviu a risada leve e sentiu a mão puxando a dele, na pressa de chegar logo ali.

Não sabia quando foi que passou a ter tanto passado e tão pouco presente. Nem quando se perdeu e parou de sentir o mundo. Talvez era por isso que sempre tivera tanto medo de envelhecer. Era o receio de morrer antes do corpo, repetindo todos os sentimentos que já teve sem nunca criar um novo. E quanto mais continuava seguindo o caminho de anos atrás, mais queria sair dele. Só que era claramente impossível, porque aquela sensação, aquele desabafar sozinho era tudo o que ele tinha, era tudo que o tempo tinha permitido que ele levasse consigo. Era assim que viveria daqui para frente. Sem ela e sem ninguém, ele ouviria aquela música até que a natureza terminasse o trabalho dela.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

you and me

Com angústia, olhei para ela. A porta já estava fechada, eu não precisava mais suportar as pernas queimando. Simplesmente soltei o corpo e caí de joelhos. Apertei firme o cabo da adaga tentando respirar, só que tudo era muito. Muito cansaço, dor, ansiedade, alívio, amor. Beirava o impossível realizar qualquer trivialidade com a cabeça e o coração tão selvagens. Acima de tudo, minha visão submersa e distorcida me isolava ainda mais da consciência.

Desesperada, olhei para ela e agarrei a realidade mais uma vez. Todas as dúvidas, que ecoavam em mim, silenciavam quando eu lembrava de tudo que vivemos. Ela era meu porto seguro, minha protetora, minha sanidade.

E quando eu finalmente me sentia retomando o controle de mim, eu a vi desabar. De olhos fechados, ela escorou as costas na porta colossal e escorregou pela madeira até sentar no piso de pedra. O rosto dela, brilhando vermelho, me fez reviver o momento que as pedras odiosas voaram em nós, lembrar meu medo. A impotência me envolveu, senti meu rosto quente pelas lágrimas mudas. Ela abriu os olhos, olhou para mim e desenhou um sorriso cansado na boca. Impossível! Por que ela parecia tranquila naquela situação tão extrema? Comecei a descarregar todo meu instinto de defesa. "Você vai morrer, Ivy! Por que você insistiu?! Você sabia! Você sabia que a gente acabaria assim! Tudo isso é culpa sua!" Não consegui firmar mais a voz, parei para não sufocar e desfazer o nó na garganta antes que ele ficasse cego. Meu peito estava apertado. Falar aquilo e me escutar me machucou, mas era a verdade. Eu tinha tudo antes de tê-la. Agora, eu corria o risco de perdê-la, a única coisa que me restava. "Por que você precisa comprar briga com todo mundo? Por que você precisou comprar briga com o mundo?"

Ela tossiu e o sangue da garganta maquiou os lábios. Ela sorriu novamente e me olhou com ternura, de certa forma me dizendo que ela abandonaria a vida a qualquer minuto. Meus olhos se encheram, nada mais fazia sentido. Eu só queria me entregar, parar de jogar aquele jogo, acordar e estar em um lugar tranquilo, com ela em meus braços e um futuro feliz pela frente.

Foi quando Ivy respirou fundo, apoiou o braço na perna e se levantou. Eu ouvi os passos em minha direção e vi a silhueta inundada do corpo dela. Ouvi quando ela se ajoelhou do meu lado e ouvi quando ela suspirou relaxada. Fez um carinho gentil no meu rosto e me pediu desculpas, repetidas vezes, e me pediu para parar de chorar e ouvir. "Nunca foi minha intenção comprar briga, nem te arrastar para essa vida de fuga. Eu simplesmente quis me dividir com você, sem me segurar. Eu precisava viver o mais intenso que eu pudesse, aproveitar cada pequeno detalhe nosso. Porque quando você apareceu, eu não sabia que poderia experimentar os sentimentos que eu tive, nem sabia que me faria tão bem." Ouvindo aquilo, confiei de novo. Meu medo não diminuiu, mas meus atos recentes faziam sentido. "Mylla, a gente já conquistou muito mais do que esperavam de nós. Eu estou saciada. Diferente de você, eu não quero ser perpetuada na memória. Já usei tudo que queria desse mundo. A vida termina mais cedo ou mais tarde, e não me arrependo se a minha terminar em breve. O que eu tive já me valeu a pena." Ela então me abraçou forte e com a voz abafada falou: "Obrigada por tudo que você me deu. E por me fazer sentir amada."

Então chorei mais, dessa vez de uma tristeza reconfortante. Minha admiração por ela era gigante naquele momento e eu tive ainda mais sede por nós. Ivy me deu beijo macio e ferroso nos lábios, depois se levantou e caminhou até a janela. Viu as tochas no horizonte, se voltou para mim e terminou: "Não adianta mais fugir, nem há nada que possamos fazer. Eu quero morrer lutando ao seu lado... E te proteger até o fim.  Se fosse numa outra época, num outro lugar, conseguiria sonhar e imaginar um futuro diferente. Mas aqui e agora não existe sonho, eles nunca entenderão nós duas. Estamos sozinhas... Somos apenas você e eu... Contra o mundo."

terça-feira, 30 de setembro de 2014

simples

Afundou a cabeça nos braços sobre a mesa. Era mais tarde do que gostaria. Virou e olhou para a janela da sala. Os pequenos caminhos de água que as gotas criavam no vidro fizeram com que ela se sentisse exausta.

Suspirou angustiada com a hora, não queria deixar o amanhã chegar. Tantas coisas para fazer, outra vez. Levantou a cabeça e se endireitou na cadeira, estufou o peito e suspirou de novo, determinada. "Uma das grandes virtudes é saber quando é hora de encerrar o dia." Foi para o quarto, se jogou na cama e se preparou para o inevitável recomeço.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Edge

Ela começou a fuçar a bolsa dele. Abriu o zíper, descompromissadamente, enquanto ele conversava com os amigos logo ali. Depois disso, puxou a bolsa pela mesa até que estivesse bem pertinho dela. Levantou a parte de cima, olhou para os objetos dentro e pegou o estojo. Abriu e encontrou um estilete, com a lâmina embaçada de grafite dos lápis apontados. Ele ouviu o barulho do metal correndo e se virou. Ela se levantou enquanto ele vinha matar a curiosidade. Ela virou o estilete, lentamente levou a lâmina contra o pescoço dele e fez uma leve pressão. Ele a encarou sem medo e durante alguns segundos nenhum dos dois se moveu. Ele começou a forçar o pescoço para frente e aproximar o rosto dele do dela. Ela ficou surpresa e apreensiva, talvez ele se machucasse, mas ainda assim ela queria tentar pará-lo, ele estava perto demais. E continuava se aproximando. Quando os lábios dos dois estavam quase no toque, ele parou. Olhou o fundo dos olhos dela e levantou a mão. Ela sentiu um toque quente no rosto e a única cor do mundo era a branca. Ela estava leve e o coração doía. Ela piscou e acordou deitada em um campo verde. Se levantou e tentou achar a consciência, mas tudo que encontrou foi o Sol confortante contra a fria brisa que acariciava a grama silvestre. Achou também uma árvore de tronco largo e raízes pendendo ao ar livre, no limiar entre estar na terra e voando no precipício que abraçava todo o campo. A árvore mal conseguia se manter ali, ou até maestralmente bem, no entanto não se livrou de começar a cair junto com toda aquela ilha de terra cercada de ar por todos os lados. A garota sentiu o estômago entendendo a queda antes da mente. A gravidade, cruelmente indistinta, guerreou a terra e venceu, derrubando tudo inclusive a sensação de conforto de segundos atrás. O oceano abaixo então se abriu e cedeu espaço para o penetra pesado, reclamando ondas gigantes e para longe. A garota se segurou na grama, a única crina do imenso cavalo descontrolado, enquanto um raio partia as patas e a cabeça do animal sem vida. Meses se passaram, os braços se tornaram cidade de cãimbras e se moldaram em estátuas sem músculos flexíveis. O cabelo dela agora era a grama, as pernas eram raízes e de repente ela se viu florescer. Começou a crescer e se tornar tão parruda que conseguiu erguer novamente toda a ilha enquanto se alimentava do ar, da água e do solo. Se tornou uma árvore imensa e finalmente alçou vôo. Venceu os medos, as dores, as fraquezas e a gravidade. Piscou e olhou no fundo dos olhos dele. Ele afastou a mão do rosto dela e deixou que ela visse o sangue escorrendo do pescoço. Ele sujou a mão com o próprio sangue e espalhou na testa dela com um gesto descuidado. Ela se sentiu aquecida mais que o sol e teve certeza de que todas as certezas eram medíocres. Sentou na mesa. O ferimento se fechou lentamente recolhendo e bebendo todo sangue expelido. Era um pescoço saudável e limpo, sem qualquer vestígio, nem sangue, nem grafite. Era o crime perfeito. Ela seria eternamente jovem e bela.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

unattached

Aquele cara!

Desde que nasceu, ele simplesmente não se sentia parte de nada. Não conseguia se identificar com nenhum grupo que cruzava o caminho.

Não foi programado pela família e, talvez por isso, não se achava parte dela.

Não tentou ser filho, nem irmão, nem amigo. A grande preocupação dele não era assumir os papéis, mas encontrar as respostas. Era tão perdido que pular três vezes estava fora de cogitação.

Ele talvez tenha tentado pular mais do que devia e acabou encontrando muito de si e pouco do resto.

Só que quando se achou, finalmente, se achou diferente. Viu que não se encaixava em nada que o rodeava. Se sentiu sozinho e desapegado, e foi assim que aprendeu a se sentir confortável.

Não importava quem se aproximava, sempre se via de fora. Com o tempo, ao invés de tentar se encaixar, tentou individualizar as relações e nunca mais conseguiu se relacionar com grupos, apenas com pessoas. E em cada uma delas tentava encontrar um pouco de si e dar o máximo que pudesse, para se sentir útil e parte de alguma coisa.

Sem planos nem fronteiras, ele apenas seguiu em frente permeando tudo que tocava sem nunca se prender.

Um dia decidiu morrer. As pessoas não choraram, apenas lembravam dos poucos momentos que valeram a pena e sorriam de canto, enquanto outras sentiam alívio pelo término daquele corpo estranho à tudo.

domingo, 13 de julho de 2014

motion sickness

A maldita satisfação que extrapola a satisfação, que de tão grande se torna pesada. O estômago se contorce pedindo descanso, ameaçando jogar de volta tudo que ele tenta guardar.

É tanta satisfação que é quase o fim de algo sem fim. Falta de vontade de qualquer coisa, até de ter falta de vontade. Aparece um cansaço maldito e até descansar é cansativo.

O problema é quando tudo deixa de ser um problema e nada mais importa nada mais.

Essa satisfação, na verdade, é uma dor tão disfarçada que as pessoas costumam conseguir carregar por muito tempo, sem perceber. Só que sendo dor, ela priva os outros sentidos e reduz tudo a ela mesma e o que resta é apenas o resto de uma divisão inteira.

O problema é quando só existe um problema, insolucionável.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Single Path

Ela olhou para o momento e travou. Ela queria ter controle e precisava de coisas previsíveis. Sempre foi assim, caminhava devagar e gritava para afastar qualquer perigo oportunista. As pessoas ficavam de longe, muitas admiravam... Algumas poucas se aproximavam, só que quase sempre acabavam surdas. Ela tinha controle.

Até que um dia ele apareceu, na mão o bastão cinza e nos ouvidos os fones azuis. Ele era feliz e ria sincero. Se aproximou dela sem dificuldade, fez ela se calar e perder o controle. Ele podia ter ido onde quisesse, mas preferiu ir ali onde ela estava. Deu para ela alguns instantes e ela sentiu liberdade. Porém, na liberdade ela sentiu medo. Voltou a gritar e agora mais alto, talvez para afastar os próximos, talvez para chamar de volta o controle perdido. Ele viu que ela era de papel e ele era de água, decidiu então partir.

No final era tudo que ela sabia. Seguir um caminho único e nunca se desviar dele. Ir em frente sem nunca olhar para dentro. Sempre certa e sem remorso, nem tão insegura, nem tão feliz.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Apenas um de dois

Ergueu a mão para frente e apontou o dedo para ele. Se pudesse, atiraria toda raiva acumulada pela ponta do indicador ereto. Fechou a expressão e converteu todo sentimento em uma voz pesada e cruel:

- Eu já não tenho interesse algum em te ouvir. Você se repete tanto que nem sei se tudo isso que fala é pra mim ou pra você mesmo.

Ao ouvir isso, apertou firmemente o cabo da arma na mão. Quis apontá-la para frente, mas desconfiava que, se deixasse isso acontecer, não conseguiria  se conter apenas na intimidação. Respirou e se preparou para falar, em vão. Novamente a voz tenebrosa vibrava nos tímpanos.

- Não se dê o trabalho de jogar na minha cara o que é o certo pra você. Estou cansado dessa filosofia covarde que vocês insistem em chamar de honra. E é por isso que eu vou embora.

- Você não tem esse direito! - engatilhou a agulha da arma e pousou o dedo no gatilho.

- Você sabe que eu não vou desistir. E eu sei que você tem que me matar. Nada que eu falar vai abaixar esse seu escudo de certeza. Eu vou me virar agora e sair por aquela porta. Não sei o que você vai fazer quando eu me afastar, só entenda que o que quer que aconteça, esse é o momento em que vamos resolver de uma vez por todas essa merda - recolheu o braço, virou de costas e ensaiou o primeiro passo.

Ouviu a arma se erguendo atrás e se posicionando em mira mortal. A vontade na garganta era de gritar o mais que pudesse, toda insatisfação acumulada, e acordar todos ao redor para o que ele era capaz de enxergar. Cerrou o punho ao lado do corpo com tanta força que o braço tremeu. Socou o topo da mesa mais próxima e continuou o caminho até a porta.

- Você é um moleque! Só quer fazer o que tem vontade! Mas o mundo não é assim. Você vai apenas fugir mais uma vez. Pra onde você pensa que vai? Você acha que tem lugar nesse mundo pra alguém como você?

As palavras de reprovação mais uma vez nutriram a raiva interna. Continuou andando, faltava pouco. Mais um passo e atravessou a porta. Virou-se agressivamente, socou descontrolado o batente e bravejou:

- Você não vai atirar! Porque apesar de todos te acharem o homem que deu certo, no fundo você sabe que eu sou melhor que você. Você simplesmente não aceita ver que eu tenho coragem de seguir minha cabeça, enquanto você tenta desesperadamente não falhar com os outros. Eu estou exausto de me importar com vocês e ter que engolir que ainda assim não tenho valor algum pra esse grupo. Acontece que eu descobri que eu não quero tentar ser o que vocês querem que eu seja, eu só quero viver com minhas escolhas. Avisa pro nosso pai que ele falhou com os dois filhos, e que tudo que ele construiu é apenas um grande vazio. Ninguém é realmente forte se não entende pelo menos um pouco de si mesmo. Adeus, irmão.

Virou-se e saiu, e viveu sozinho.