quarta-feira, 21 de outubro de 2009

História I / parte II

Essa história começa aqui: parte I

Ela subiu as escadas, abriu a porta de casa e se deparou com a mãe na sala.
- Minha filha, por que demorou tanto? - perguntou a mãe, um pouco aflita.
- Nada, mãe. Fiquei estudando com minha amiga para a prova de semana que vem.
- Ah, minha filha, quando for assim liga pra casa!
- Eu liguei, a senhora que não atendeu. - disse se livrando da bolsa e do tênis.
- Mas avisa. Senão sua mãe fica preocupada...
- Tá bom, mãe. Tá bom. - falou indo pro quarto, tentando evitar ouvir as mesmas coisas de sempre da mesma forma de sempre e, quem sabe, voltar a sentir a emoção que trazia instantes antes de abrir a porta. Não queria que nada atrapalhasse seu momento. Queria se entregar inteira àquela sensação, deliciando cada segundo. Sem falar mais nada, foi para o quarto praticamente fugida. Entrou e fechou a porta. Encostou as costas na parede e um imenso sorriso surgiu no rosto. Respirou fundo tentando emergir da intensidade de todo aquele sentimento.

Não importa quem ele é, não importa se não sabe mais nada, não importa o que os outros vão pensar. Ela só queria ser dragada para bem distante dali e se perder nos pensamentos que se multiplicavam.

Foi quando ocorreu-lhe algo, abriu a porta do quarto, foi até a sala saltitando e pegou com destreza o telefone sem-fio. Voltou para o quarto antes que sua mãe tivesse chance de falar qualquer coisa. E, no momento em que a porta do quarto se fechava mais uma vez, ouviu a voz da mãe se expandindo para logo depois se abafar e sumir sem completar nenhuma palavra.

Deitou na cama de bruços, colocou o telefone na cabeceira e o encarou. Intimou o aparelho cada instante seguinte com muita aflição, quase conseguia ouvi-lo tocando e algumas vezes até julgou que realmente estava.

Enquanto a espera infinita prosseguia, lembrou-se de cada detalhe da viagem de ônibus, de cada gesto e palavra dita enquanto estava em casal. Do oferecimento despretensioso dele e do sorriso antes de partir. Agora, na memória, passavam todos os filmes e livros de romance. As mocinhas felizes e seguras entre os braços do cavaleiro destemido. Não existiam mais dragões amedrontadores, raptores cruéis. Só lembrava de...

Acordou assustada. Era manhã e ainda estava com a mesma roupa. Olhou para o relógio e confirmou o novo dia.
"Será que ele ligou enquanto eu estava dormindo?".
Não acreditava que em meio a toda ansiedade havia adormecido. Levantou-se semi-consciente, tirou a calça e a blusa e vestiu algo mais confortável. Foi até a sala ainda cambaleante, sentou-se na mesa e, enquanto assistia a televisão, serviu-se de leite quente.

A mãe estava no sofá tomando café, com os olhos pregados no jornal da tela. Bebia mecanimente, sem nem piscar.

A garota observou a mãe e pensou em perguntar se alguém ligara noite passada, mas postergou por alguns momentos pela falta de força matinal.

Foi enquanto misturava o chocolate no leite que ouviu algo fora do comum:

"...moradores do bairro. Testemunhas afirmam terem visto três homens abordando o jovem e pedindo os pertences. Logo após, teriam ocorrido três disparos, realizados por um dos bandidos, e a fuga dos meliantes por essa rua. O jovem era o universitário..."

Seu coração disparou agonizante. Sem perceber, entornou o copo de leite pela mesa e os olhos não conseguiam acreditar na foto que via na tela.
"Impossível. Não pode ser."
Atônita aparentemente, por dentro era uma queda no abismo que aos poucos a trazia para a realidade. Sentiu um fluxo intenso de sangue no peito e na cabeça e, logo em seguida, um suor gélido pelo corpo.

A mãe se vira:
- Bom dia, filha - sorrindo com sinceridade.

***

Logo após retomar seu caminho, sentiu o ar mais limpo. Estava satisfeito com seu feito e feliz de ter descido do ônibus. A garota pareceu-lhe interessante. Por alguns instantes sentiu atração por ela.
"Quem sabe o que pode acontecer?"
Alguns minutos de caminhada e adentrou um clima pesado. Pela rua, vinham ao seu encontro três homens apressados e nada amistosos. Um deles, com a mão dentro da camisa, pareceu querer tomar a frente do grupo.

Não havia para onde correr nem a quem recorrer. Era encarar a situação e esperar. Inicialmente, a adrenalina tomou conta. Sentiu o coração pulsando pelo corpo inteiro, incontrolável. O estado de alerta trazia uma certa falta de consciência, que travava as pernas e aguçava os sentidos. Respirou fundo e continuou prosseguindo. Lembrou da expressão da garota antes de descer do ônibus, sabia que ela passara por aquilo mais cedo. Todos os músculos estavam prontos para enfrentar a situação de perigo, inundados e totalmente despertos. Os segundos seguintes pareceram infindáveis.

Finalmente, na iminência da abordagem, uma calma estranha consumiu-lhe a mente. Sentiu o corpo formigando e milhares de pensamentos atravessaram a cabeça. Respirou fundo mais uma vez, não queria se distanciar dali e deixar o corpo passar por aquilo sozinho. Tentou manter o foco.

- Anda, playboy! Passa a bolsa, passa a bolsa - disse o homem do meio sacando a arma.

Por mais incrível que seja crer, quando a arma entrou no conflito, um sentimento gigantesco atacou o peito do rapaz, antes que qualquer bala pudesse ser disparada. De repente, nada mais parecia importar. Tudo era estranhamente familiar.

Esse sentimento de conforto encolheu o mundo inteiro a algo muito bem conhecido. Como se conhece a rua onde se viveu desde a infância. E tudo reluzia aquele brilho que as coisas têm quando se é criança. Aqueles três não eram três inimigos, os via como seres humanos como ele, nada diferentes, nada mais.

A vida se repete em simples atos físicos. Apenas mudanças no estado das coisas, dos corpos e do tempo. O valor que se agrega a tudo está em nossas mentes. Não existe nenhum sentimento que não tenha sido inventado por alguém, para explicar um estado mental e físico. Nada disso é concreto, e todos sabem, mas ele via isso.

Era livre de tudo naquele momento. Conseguia se mover para onde quisesse com a velocidade que quisesse. Sentiu um sentimento de completude e tudo pareceu passar por dentro de cada parte de seu corpo, com estranha intimidade. Agora, era parte do todo e não estava mais sozinho. A felicidade e satisfação que tentavam expandir seu peito eram tão intensas que o garoto queria poder dividir isso com mais alguém, mas sabia que não teria oportunidade para isso. Sabia que iria morrer. Contudo, isso também não importava.

Virou-se para o homem que lhe apontava a arma e sorriu sincero, sem medo.

Por algum motivo qualquer, o homem sentiu um frio na barriga e uma sensação de desconforto. Aquele garoto pareceu crescer ameaçadoramente com aquele gesto. O suor frio brotou pelo corpo e, por impulso inconsciente, apertou o gatilho. E de novo e outra vez.

Na última vez, sentiu um frio na espinha, a adrenalina sendo injetada. Precisava fugir. O amigo pegou a bolsa do cadáver e gritou:
- Você tá doido!? Seu filho da puta, a gente tá fudido!

Sem falar nada, começou a correr e os outros o acompanharam. Já distante dali, mais seguro, sentiu uma tristeza inexplicável. Pois o momento antes de apertar o gatilho, ele sabia sem saber, foi o único momento de sua vida em que não se sentiu sozinho...