quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Papel

Abstração é o maior poder. Conseguir separar e classificar, e ainda reutilizar qualquer "conhecimento adquirido" em outro lugar faz a inteligência.

Manipula-se as idéias em metáforas simplesmente para reaproveitar o padrão característico para a compreensão. E, às vezes, surge algo tão abstrato que as correntes com a realidade parecem nada mais que teias finíssimas lentamente se partindo e deixando o bloco a deriva.

Exemplificando o próprio texto, continua-se no ideal, e quem, em algum futuro, usar isso por base para abstrair ainda mais, com certeza perderá muitos outros que lerão e, finalmente, num belo dia, nada mais dito aqui e ali terá qualquer resquício convergente para o intuito original.

De alguma forma, isso já aconteceu tantas e tantas vezes que hoje tem-se milhares de valores totalmente arbitrários, trazidos e modificados entre eras humanas. É tudo tão irreal, porém tão base de qualquer coisa que há uma falta de contentamento no estado pouco concreto.

Então, por todas as ciências, entra a prova. Que nada mais é que papel; O que separa o rico do pobre; O que concretiza o amor em união eterna. O que faz o filho ser filho de seu respectivo pai; tudo isso é comprovado por simples pedaços de papel. Frágeis como todos os valores da realidade que eles criam.

E qualquer chuva ou vento ou fogo, qualquer simples força destrutiva, por menor que seja, pode destruir tudo isso. Assim, num piscar de olhos.

Toda essa lei abstrata que se enraiza na cabeça, contaminando pouco a pouco a capacidade do ser; essa imensa maré feroz, com a qual é impossível lutar contra sem morrer, é apenas uma pilha de papel cheio de tinta tentando provar pro mundo que o mundo é assim e que ninguém pode dizer o contrário.

É impossível dizer, apenas pelos contratos, a verdade. Não se afirma que alguém sabe realmente tudo aquilo que soltaram sobre ele durante anos de faculdade, nem se o casal se amará para sempre, nem a posse da terra ou os direitos divinos. Contudo, esse é o fundamento e todos se prendem a isso por mera aceitação.

Não digo aqui nada sobre revolta ou anarquia, nem quero, nem tento. Apenas digo que a vida social é feita de papel e, se permitir que a sua seja também assim, então que não chova nem vente nem chore.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Caminhos...

Existia um homem.

Há algum tempo, o que o movia era o desejo do melhor, de alcançar o inalcançável, de atingir o limite. Ele queria explorar seu potencial e descobrir, de fato, onde esbarraria em um obstáculo tão grande que mesmo dar a volta levaria mais que uma vida.

Ele acreditava que o único limite era o da mente. A crença no intransponível apresentava-se como o alimentador de todos os outros obstáculos.

Correu com toda a velocidade, queimando músculo, sangue e vida pra encontrar o fim de todas as capacidades. Queria tocar o ponto final de todas as vertentes e, quem sabe, ver que todas são como veias que se perdem em meio ao corpo pra nutrir o todo que as mantém.

Tudo que conseguiu foi se encontrar em meio a uma nuvem líquida imensa que delimitava nada de coisa alguma. Por mais que cada movimento representasse o conceito comum de seguir em frente, ele, por si só, não se sentia avançando nem regredindo, e aos poucos passou a sentir nada. Se misturou com a nuvem e percebeu que para todos os lados que fosse, iria de alguma forma para a superfície, mas que por mais que nadasse, a superfície não se aproximava nunca como se toda a imensidão se movesse junto com ele, num deslocar sistemático como um balé de equilíbrio.

De repente, a corrida terminou no mesmo instante do barulho do tiro de largada. O sangue chegava e partia em ciclo perfeito e complementar. O tempo não era uma linha e nada tinha delimitação. A mesma essência estava em tudo e nele mesmo.

Ele então sentiu. Era parte do todo e não existia motivo para medo. Não havia necessidade de coisa alguma. Só queria entender o todo e se entender com isso. A única coisa que queria era viver o que ele era e toda aquela nuvem da qual fazia parte.

No final, pouco antes de se perder no infinito, percebeu que seu limite era exatamente a única coisa que acreditava ilimitada. Ele nunca entenderia de verdade, mas aceitava sua condição e estava tudo bem assim. Finalmente, seus átomos se separaram e se espalharam por aí, entoando o último canto e ao mesmo tempo o canto de boas vindas.