terça-feira, 11 de agosto de 2009

História I / parte I

O ônibus partiu do terminal lá pelas onze da noite. Fazia frio suficiente para vestir uma blusa de manga comprida e andar por algumas dezenas de metros sem sentir calor.

Dentro do ônibus estavam poucas pessoas, não importa quantas. Ao fundo, uma menina de blusa branca e calça jeans sentada num daqueles bancos sem par, aquele que diz "não quero ninguém do meu lado, não importa quem seja"... "E se insistir, ficará em pé amargamente!".

Duas fileiras atrás, no último dos últimos, estava um cara de blusa cinza. Uma blusa surrada, velha, mais velha que a infância. Calçando confortáveis sandálias de dedo, velhas, competindo ferozmente com a velhice da blusa, quase se ouvia as duas discutindo. Duas velhas batendo boca sobre nada, ou sobre sua própria velhice!

Pronto, no fundo do ônibus eram somente eles.

Então, a menina sentiu-se incomodada por uma observação insistente. O cara do último banco, o mendigo de roupas velhas, parecia olhar para ela ameaçadoramente. Claro que parecia, claro... Que parecia... Parecia! Parecia porque ela nem se dera ao trabalho de olhar para ele e confirmar a verdade, e nem se daria. Porém, o incômodo fez seu trabalho bem e trouxe uma pontada de medo. Precisava saber se aquele ser não era um marginal assassino prestes a assaltar, estuprar, matar e correr. Então, com toda sua destreza estratégica e disfarce sonso, olhou para a janela tentando ver o reflexo do rapaz pelo vidro, e aproveitou para montar na cabeça a imagem que conseguiu com a visão periférica. Divergindo a atenção entre o reflexo e o borrão colorido sem definição, criou mentalmente a idéia de um garoto desanimado e pouco ameaçador, que nem olhando para ela estava. Deu-se por satisfeita e ficou tranquila.

Tudo bem, agora estava tudo bem. Viagem pacífica, rápida, a casa dela não era nada longe. Em menos de dez minutos estaria acolhida no lar, tirando o sapato e deitando na almofada amarela gigante do quartinho bonitinho e quentinho.
Olhou para frente. A escuridão lá fora fazia com que todas as janelas se tornassem espelhos translúcidos de fundo negro, fazendo do ônibus três vezes maior.

Foi em qualquer momento próximo a tranquilidade retornada que se deu o desespero! O ônibus estava passando por um lugar que ela nunca vira antes. O ônibus de todo dia da rota de todo dia.

O coração disparou e uma sensação terrível inundou seu peito. Levantou já quase sem consciência do que estava fazendo:
- Esse ônibus é qual? - perguntou pro rapaz da blusa cinza.
Ele levantou a cabeça de um suposto sono, olhou pra ela tranquilo:
- Relaxa, esse ônibus mudou a rota há pouco tempo.
- Como assim "mudou a rota"? Ele devia ter virado na rua lá atrás.
O rapaz olhou pra ela e percebeu o desespero. Era tarde; ela era menina; ele ficou um pouco apreensivo por ela.
- Ele vai dar uma volta maior, mas vai voltar depois. Ele passa na pracinha atrás da igreja depois vai pro ponto final.
- Ele não passa mais na rua do supermercado?
- Não, mas a rua atrás da igreja é perto. Eu te mostro o ponto onde você tem que descer.

Ela ficou um pouco mais tranquila e foi quando percebeu que estava falando com o ex-assassino-mendigo de momentos atrás. Sentou-se, mas continuou atenta no caminho, um pouquinho aflita.

O rapaz pensava em ajudar. Viu o desespero dela ainda permanente no rosto. Pensou, então, que nada custava acompanhá-la até em casa. Afinal, teria que andar depois coisa de seis, sete quarteirões no frio. Nada demais. Esperou pelo momento certo de ofertar, e esse momento seria, segundo ele mesmo, pouco antes do ponto dela.

A viagem prosseguiu, ambos tensos. Até que o rapaz a chamou:
- Ei, moça. Seu ponto é o próximo...
Ela levantou-se dando sinal. Ainda tentando olhar para fora e se localizar.
Ele apontou pela janela mostrando uma rua.
- Você vai seguir essa rua até a igreja, viu?!
Ela olhou e pareceu ainda mais preocupada.
- Se quiser, posso te acompanhar até em casa. - disse ele.
- Não, que isso. Não precisa.
- Bom, você que sabe. - voltou a se recostar no último banco e pareceu realmente não querer insistir. Na verdade, o "não precisa" foi tudo que precisava ouvir para achar que tinha feito o suficiente.
O ônibus foi freiando e se aproximando da parada. A menina agora estava em dúvida se gostaria que o rapaz a acompanhasse. Ela temia tudo naquele momento, quase em estado de pânico, não sabia o que fazer.
- Ei, moço... - falou e olhou pra ele com a mesma cara de desespero de antes, pedinte.
Ele olhou de volta e não deixou que ela falasse mais nada.
- Vamos. - levantou no mesmo instante em que o ônibus parou, colocou a mão nas costas dela e empurrou levemente em sinal de "vá na frente".
Ambos desceram, a porta se fechou e o ônibus seguiu viagem.
Ela olhou para frente, não conseguia encará-lo. Estava sentindo um misto de vergonha e medo. Definitivamente não sabia o que fazer.

- Onde você mora? - ele perguntou.
- Ali na frente. - ela disse.
Os dois começaram a andar pela rua deserta. O ponto onde desceram era na frente de um terreno baldio sem calçada, apenas um meio fio descontínuo delimitava o que era rua do que não era. Andaram por uns metros em silêncio, até virarem a esquina na outra rua. Essa nova rua era menos hostil. Algumas casas e árvores faziam da rua um corredor largo de muros e folhas. Os postes iluminavam fracamente por entre as árvores, e embora o ambiente parecesse menos cruel, aquela pouca luz trazia à memória todos os filmes de terror que ela havia visto e odiado. "Mocinhas em pânico correndo de homens psicopatas maníacos!".

- Relaxa, moça. Não vou te matar. - disse o rapaz com um sorriso no rosto em tom quase brincalhão.
Ela ruborizou e olhou para ele replicando rapidamente.
- Mas eu nem disse nada.
- Só que está preocupada como se estivesse mais com medo de mim do que da situação. Se soubesse que iria ficar assim, teria seguido viagem.
Ela olhou pra ele, com ar de arrependida. Só ar, não tinha arrependimento suficiente ponderado para estar arrependida de verdade. A adrenalina nela estava a toda e não a deixava raciocinar direito.
- Desculpe, não queria parecer ingrata.
- Nada, não estou ofendido. A idéia era fazer você chegar em casa mais tranquila se eu a acompanhasse. Mas pelo jeito deu na mesma.
- Não, não... Eu estou mais segura agora. Sério. Desculpe por te julgar mal.
- Se eu fosse uma menina perdida na meia-noite também teria medo de tudo. E, provavelmente, também teria medo de mim.
Ela riu. Finalmente. Ele se sentiu bem. Finalmente. Ambos andavam, a casa dela se aproximava e o mundo não parecia mais maldito.
- Você já conseguiu o que quer? - perguntou ele, de repente.
- Ahn? Como assim?
- Você já conseguiu o que você busca na vida?
- Ah, que pergunta! - disse quase gaguejando - Sei lá, ainda sou muito nova. - buscava com o olhar além-horizonte uma resposta, parecia vasculhar toda a mente - Não sei bem... Quero muitas coisas.
Eles andaram mais um pouco e pararam em frente a um prédio humilde de três andares. Isso se deu em poucos segundos.
- Então fica tranquila, você vai ter tempo pra consegui-las. Eu salvei você essa noite exatamente pra isso. - disse ele rindo.
Ela riu também.
- Não, sério. Muito obrigada - disse sem jeito - Muito obrigada. Cara, tou com vergonha, fiz você descer do ônibus só pra me trazer - de repente, ao falar essa frase toda, ela sentiu uma familiaridade inexplicável no rapaz, uma confiança estranha. O jeito que ele falava, andava, passava uma segurança que a atraiu.
Ela olhou para o rosto dele e viu uma beleza inexplicável. Não havia reparado antes nisso por todas as preocupações anteriores, mas agora, mais calma, ela se sentia atraída. Tudo isso, de uma só vez, fez seu coração disparar.
- Você não me fez fazer nada. Desci porque eu quis. Nem esquenta.
Olhou novamente para ele. Agora ela não queria que ele fosse embora, queria conhecê-lo. Ela estava confortável. A noite estava bela, um frio gostosinho. A rua tinha um ar de filme de romance europeu. Tentou falar alguma coisa, mas só conseguiu imaginar.
- Bem, vou indo. Prazer te conhecer!
- Não, espera. Tá tarde, eu vou ficar preocupada com você.
- Nada, eu me cuido.
- Não, cara. Quando você chegar em casa me liga, por favor, só pra eu saber que você chegou bem.
- Tá, pode ser. Qual seu número? - perguntou tirando o celular do bolso.
- Anota aí. É 3221-0203.
Ele apertou teclas e mais teclas... E finalmente:
- E seu nome? Nem sei.
- É, nem falei. Aline, prazer. - estendeu a mão pra ele.
Ele anotando estendeu de volta, ainda olhando pro celular.
- Prazer. - falou disperso.
Acabou, guardou o celular na bolsa, - agora vou indo.
- Ei, espera! Você não me disse seu nome.
- Marco. - disse já tomando o caminho.
- Tchauzinho. - ela falou com um sorriso no rosto.

- Tchau. Prometo não matar ninguém pelo caminho. - disse rindo e se afastando.


  Continua: parte II

domingo, 2 de agosto de 2009

A Mudança

(DESCRIÇÃO DO MUNDO) Quando comecei isso, decidi pelo formato de "livro" porque achei que assim eu escreveria sempre, já que tenho problemas sérios com qualquer tipo de atividade pendente.

(COMPLICAÇÃO) Porém, cai em uma armadilha. Uma daquelas que armamos por qualquer escolha trivial impensada. Infelizmente, por querer fazer de meros devaneios um livro, acabei podando e direcionando sobre o que eu deveria pensar e escrever. Logo me cansei de tentar trilhar esse caminho tão rígido, uma ponte de madeira massissa suspensa a muitos metros em altura mortal.

(SEGUIMENTO) Depois que me perdi nas lufadas mentais por todo o período de férias, perdidas entre tanta falta de sono e de saúde, juntei tudo, digeri tudo e finalmente concluí. A conclusão, no entanto, pareceu tão acolhedora que se extendeu até agora e me fez duvidar da sua existência. E por tudo isso, decidi escrevê-la por aqui, abandonando a idéia de livro e voltando ao dilúvio previsto inconscientemente no título.