domingo, 29 de novembro de 2009

Obrigado, turbilhão!

Sou maior que acreditei ser. E não digo isso querendo dizer que sou melhor ou mais capaz, e sim que sou ainda mais desconhecido diante de mim mesmo.

Se as épocas de paz decantam toda a sujeira pra bem fundo, longe do olho, as épocas de maré revoltam toda a bela cristalinidade que deixava os raios de sol submersamente visíveis e bailantes.

Quando nada incomoda, quando as coisas simplesmente correm do jeito certo, acredita-se estar seguro, forte, como se nada mais pudesse perturbar a suavidade do passar do tempo e da vida.

Contudo, se de repente, entra-se em contato com algo que abala, as águas se movem, e quem aproveitava-se da superfície e de sua beleza límpida, agora vê a areia suja e desconhecida surgindo das profundezas e subindo como fumaça na água.

Quando menos se espera, a água inteira está tão negra como a imundície da areia, e não se consegue ver mais nada. Tudo é incerto, inseguro e escuro. Não há beleza para se apreciar ou senso de direção para seguir. Estar no mar nada mais é que um pesadelo escondido pelo sonho de liberdade.

Na época de paz, ninguém mergulha para recolher a sujeira ou explorar as profundezas. Por algum motivo, nada no fundo parece importar ou ter beleza. As coisas devem ser deixadas como estão, imutáveis. Poucos se atrevem a descer para, de alguma forma, entender o que afinal é aquele outro mundo.

Só que mesmo nas épocas de paz, existem correntezas mudando os resíduos de lugar, e de vez em quando trazendo pequenas partes para a superfície. Não existe qualquer tipo de segurança em um ambiente tão instável. A escolha de como viver é difícil, pois todos estão tão perdidos quanto todos os outros que derivam sem destino.

Essa vida é o oceano.

Essa vida toda é o oceano...

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

História I / parte II

Essa história começa aqui: parte I

Ela subiu as escadas, abriu a porta de casa e se deparou com a mãe na sala.
- Minha filha, por que demorou tanto? - perguntou a mãe, um pouco aflita.
- Nada, mãe. Fiquei estudando com minha amiga para a prova de semana que vem.
- Ah, minha filha, quando for assim liga pra casa!
- Eu liguei, a senhora que não atendeu. - disse se livrando da bolsa e do tênis.
- Mas avisa. Senão sua mãe fica preocupada...
- Tá bom, mãe. Tá bom. - falou indo pro quarto, tentando evitar ouvir as mesmas coisas de sempre da mesma forma de sempre e, quem sabe, voltar a sentir a emoção que trazia instantes antes de abrir a porta. Não queria que nada atrapalhasse seu momento. Queria se entregar inteira àquela sensação, deliciando cada segundo. Sem falar mais nada, foi para o quarto praticamente fugida. Entrou e fechou a porta. Encostou as costas na parede e um imenso sorriso surgiu no rosto. Respirou fundo tentando emergir da intensidade de todo aquele sentimento.

Não importa quem ele é, não importa se não sabe mais nada, não importa o que os outros vão pensar. Ela só queria ser dragada para bem distante dali e se perder nos pensamentos que se multiplicavam.

Foi quando ocorreu-lhe algo, abriu a porta do quarto, foi até a sala saltitando e pegou com destreza o telefone sem-fio. Voltou para o quarto antes que sua mãe tivesse chance de falar qualquer coisa. E, no momento em que a porta do quarto se fechava mais uma vez, ouviu a voz da mãe se expandindo para logo depois se abafar e sumir sem completar nenhuma palavra.

Deitou na cama de bruços, colocou o telefone na cabeceira e o encarou. Intimou o aparelho cada instante seguinte com muita aflição, quase conseguia ouvi-lo tocando e algumas vezes até julgou que realmente estava.

Enquanto a espera infinita prosseguia, lembrou-se de cada detalhe da viagem de ônibus, de cada gesto e palavra dita enquanto estava em casal. Do oferecimento despretensioso dele e do sorriso antes de partir. Agora, na memória, passavam todos os filmes e livros de romance. As mocinhas felizes e seguras entre os braços do cavaleiro destemido. Não existiam mais dragões amedrontadores, raptores cruéis. Só lembrava de...

Acordou assustada. Era manhã e ainda estava com a mesma roupa. Olhou para o relógio e confirmou o novo dia.
"Será que ele ligou enquanto eu estava dormindo?".
Não acreditava que em meio a toda ansiedade havia adormecido. Levantou-se semi-consciente, tirou a calça e a blusa e vestiu algo mais confortável. Foi até a sala ainda cambaleante, sentou-se na mesa e, enquanto assistia a televisão, serviu-se de leite quente.

A mãe estava no sofá tomando café, com os olhos pregados no jornal da tela. Bebia mecanimente, sem nem piscar.

A garota observou a mãe e pensou em perguntar se alguém ligara noite passada, mas postergou por alguns momentos pela falta de força matinal.

Foi enquanto misturava o chocolate no leite que ouviu algo fora do comum:

"...moradores do bairro. Testemunhas afirmam terem visto três homens abordando o jovem e pedindo os pertences. Logo após, teriam ocorrido três disparos, realizados por um dos bandidos, e a fuga dos meliantes por essa rua. O jovem era o universitário..."

Seu coração disparou agonizante. Sem perceber, entornou o copo de leite pela mesa e os olhos não conseguiam acreditar na foto que via na tela.
"Impossível. Não pode ser."
Atônita aparentemente, por dentro era uma queda no abismo que aos poucos a trazia para a realidade. Sentiu um fluxo intenso de sangue no peito e na cabeça e, logo em seguida, um suor gélido pelo corpo.

A mãe se vira:
- Bom dia, filha - sorrindo com sinceridade.

***

Logo após retomar seu caminho, sentiu o ar mais limpo. Estava satisfeito com seu feito e feliz de ter descido do ônibus. A garota pareceu-lhe interessante. Por alguns instantes sentiu atração por ela.
"Quem sabe o que pode acontecer?"
Alguns minutos de caminhada e adentrou um clima pesado. Pela rua, vinham ao seu encontro três homens apressados e nada amistosos. Um deles, com a mão dentro da camisa, pareceu querer tomar a frente do grupo.

Não havia para onde correr nem a quem recorrer. Era encarar a situação e esperar. Inicialmente, a adrenalina tomou conta. Sentiu o coração pulsando pelo corpo inteiro, incontrolável. O estado de alerta trazia uma certa falta de consciência, que travava as pernas e aguçava os sentidos. Respirou fundo e continuou prosseguindo. Lembrou da expressão da garota antes de descer do ônibus, sabia que ela passara por aquilo mais cedo. Todos os músculos estavam prontos para enfrentar a situação de perigo, inundados e totalmente despertos. Os segundos seguintes pareceram infindáveis.

Finalmente, na iminência da abordagem, uma calma estranha consumiu-lhe a mente. Sentiu o corpo formigando e milhares de pensamentos atravessaram a cabeça. Respirou fundo mais uma vez, não queria se distanciar dali e deixar o corpo passar por aquilo sozinho. Tentou manter o foco.

- Anda, playboy! Passa a bolsa, passa a bolsa - disse o homem do meio sacando a arma.

Por mais incrível que seja crer, quando a arma entrou no conflito, um sentimento gigantesco atacou o peito do rapaz, antes que qualquer bala pudesse ser disparada. De repente, nada mais parecia importar. Tudo era estranhamente familiar.

Esse sentimento de conforto encolheu o mundo inteiro a algo muito bem conhecido. Como se conhece a rua onde se viveu desde a infância. E tudo reluzia aquele brilho que as coisas têm quando se é criança. Aqueles três não eram três inimigos, os via como seres humanos como ele, nada diferentes, nada mais.

A vida se repete em simples atos físicos. Apenas mudanças no estado das coisas, dos corpos e do tempo. O valor que se agrega a tudo está em nossas mentes. Não existe nenhum sentimento que não tenha sido inventado por alguém, para explicar um estado mental e físico. Nada disso é concreto, e todos sabem, mas ele via isso.

Era livre de tudo naquele momento. Conseguia se mover para onde quisesse com a velocidade que quisesse. Sentiu um sentimento de completude e tudo pareceu passar por dentro de cada parte de seu corpo, com estranha intimidade. Agora, era parte do todo e não estava mais sozinho. A felicidade e satisfação que tentavam expandir seu peito eram tão intensas que o garoto queria poder dividir isso com mais alguém, mas sabia que não teria oportunidade para isso. Sabia que iria morrer. Contudo, isso também não importava.

Virou-se para o homem que lhe apontava a arma e sorriu sincero, sem medo.

Por algum motivo qualquer, o homem sentiu um frio na barriga e uma sensação de desconforto. Aquele garoto pareceu crescer ameaçadoramente com aquele gesto. O suor frio brotou pelo corpo e, por impulso inconsciente, apertou o gatilho. E de novo e outra vez.

Na última vez, sentiu um frio na espinha, a adrenalina sendo injetada. Precisava fugir. O amigo pegou a bolsa do cadáver e gritou:
- Você tá doido!? Seu filho da puta, a gente tá fudido!

Sem falar nada, começou a correr e os outros o acompanharam. Já distante dali, mais seguro, sentiu uma tristeza inexplicável. Pois o momento antes de apertar o gatilho, ele sabia sem saber, foi o único momento de sua vida em que não se sentiu sozinho...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Papel

Abstração é o maior poder. Conseguir separar e classificar, e ainda reutilizar qualquer "conhecimento adquirido" em outro lugar faz a inteligência.

Manipula-se as idéias em metáforas simplesmente para reaproveitar o padrão característico para a compreensão. E, às vezes, surge algo tão abstrato que as correntes com a realidade parecem nada mais que teias finíssimas lentamente se partindo e deixando o bloco a deriva.

Exemplificando o próprio texto, continua-se no ideal, e quem, em algum futuro, usar isso por base para abstrair ainda mais, com certeza perderá muitos outros que lerão e, finalmente, num belo dia, nada mais dito aqui e ali terá qualquer resquício convergente para o intuito original.

De alguma forma, isso já aconteceu tantas e tantas vezes que hoje tem-se milhares de valores totalmente arbitrários, trazidos e modificados entre eras humanas. É tudo tão irreal, porém tão base de qualquer coisa que há uma falta de contentamento no estado pouco concreto.

Então, por todas as ciências, entra a prova. Que nada mais é que papel; O que separa o rico do pobre; O que concretiza o amor em união eterna. O que faz o filho ser filho de seu respectivo pai; tudo isso é comprovado por simples pedaços de papel. Frágeis como todos os valores da realidade que eles criam.

E qualquer chuva ou vento ou fogo, qualquer simples força destrutiva, por menor que seja, pode destruir tudo isso. Assim, num piscar de olhos.

Toda essa lei abstrata que se enraiza na cabeça, contaminando pouco a pouco a capacidade do ser; essa imensa maré feroz, com a qual é impossível lutar contra sem morrer, é apenas uma pilha de papel cheio de tinta tentando provar pro mundo que o mundo é assim e que ninguém pode dizer o contrário.

É impossível dizer, apenas pelos contratos, a verdade. Não se afirma que alguém sabe realmente tudo aquilo que soltaram sobre ele durante anos de faculdade, nem se o casal se amará para sempre, nem a posse da terra ou os direitos divinos. Contudo, esse é o fundamento e todos se prendem a isso por mera aceitação.

Não digo aqui nada sobre revolta ou anarquia, nem quero, nem tento. Apenas digo que a vida social é feita de papel e, se permitir que a sua seja também assim, então que não chova nem vente nem chore.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Caminhos...

Existia um homem.

Há algum tempo, o que o movia era o desejo do melhor, de alcançar o inalcançável, de atingir o limite. Ele queria explorar seu potencial e descobrir, de fato, onde esbarraria em um obstáculo tão grande que mesmo dar a volta levaria mais que uma vida.

Ele acreditava que o único limite era o da mente. A crença no intransponível apresentava-se como o alimentador de todos os outros obstáculos.

Correu com toda a velocidade, queimando músculo, sangue e vida pra encontrar o fim de todas as capacidades. Queria tocar o ponto final de todas as vertentes e, quem sabe, ver que todas são como veias que se perdem em meio ao corpo pra nutrir o todo que as mantém.

Tudo que conseguiu foi se encontrar em meio a uma nuvem líquida imensa que delimitava nada de coisa alguma. Por mais que cada movimento representasse o conceito comum de seguir em frente, ele, por si só, não se sentia avançando nem regredindo, e aos poucos passou a sentir nada. Se misturou com a nuvem e percebeu que para todos os lados que fosse, iria de alguma forma para a superfície, mas que por mais que nadasse, a superfície não se aproximava nunca como se toda a imensidão se movesse junto com ele, num deslocar sistemático como um balé de equilíbrio.

De repente, a corrida terminou no mesmo instante do barulho do tiro de largada. O sangue chegava e partia em ciclo perfeito e complementar. O tempo não era uma linha e nada tinha delimitação. A mesma essência estava em tudo e nele mesmo.

Ele então sentiu. Era parte do todo e não existia motivo para medo. Não havia necessidade de coisa alguma. Só queria entender o todo e se entender com isso. A única coisa que queria era viver o que ele era e toda aquela nuvem da qual fazia parte.

No final, pouco antes de se perder no infinito, percebeu que seu limite era exatamente a única coisa que acreditava ilimitada. Ele nunca entenderia de verdade, mas aceitava sua condição e estava tudo bem assim. Finalmente, seus átomos se separaram e se espalharam por aí, entoando o último canto e ao mesmo tempo o canto de boas vindas.


terça-feira, 11 de agosto de 2009

História I / parte I

O ônibus partiu do terminal lá pelas onze da noite. Fazia frio suficiente para vestir uma blusa de manga comprida e andar por algumas dezenas de metros sem sentir calor.

Dentro do ônibus estavam poucas pessoas, não importa quantas. Ao fundo, uma menina de blusa branca e calça jeans sentada num daqueles bancos sem par, aquele que diz "não quero ninguém do meu lado, não importa quem seja"... "E se insistir, ficará em pé amargamente!".

Duas fileiras atrás, no último dos últimos, estava um cara de blusa cinza. Uma blusa surrada, velha, mais velha que a infância. Calçando confortáveis sandálias de dedo, velhas, competindo ferozmente com a velhice da blusa, quase se ouvia as duas discutindo. Duas velhas batendo boca sobre nada, ou sobre sua própria velhice!

Pronto, no fundo do ônibus eram somente eles.

Então, a menina sentiu-se incomodada por uma observação insistente. O cara do último banco, o mendigo de roupas velhas, parecia olhar para ela ameaçadoramente. Claro que parecia, claro... Que parecia... Parecia! Parecia porque ela nem se dera ao trabalho de olhar para ele e confirmar a verdade, e nem se daria. Porém, o incômodo fez seu trabalho bem e trouxe uma pontada de medo. Precisava saber se aquele ser não era um marginal assassino prestes a assaltar, estuprar, matar e correr. Então, com toda sua destreza estratégica e disfarce sonso, olhou para a janela tentando ver o reflexo do rapaz pelo vidro, e aproveitou para montar na cabeça a imagem que conseguiu com a visão periférica. Divergindo a atenção entre o reflexo e o borrão colorido sem definição, criou mentalmente a idéia de um garoto desanimado e pouco ameaçador, que nem olhando para ela estava. Deu-se por satisfeita e ficou tranquila.

Tudo bem, agora estava tudo bem. Viagem pacífica, rápida, a casa dela não era nada longe. Em menos de dez minutos estaria acolhida no lar, tirando o sapato e deitando na almofada amarela gigante do quartinho bonitinho e quentinho.
Olhou para frente. A escuridão lá fora fazia com que todas as janelas se tornassem espelhos translúcidos de fundo negro, fazendo do ônibus três vezes maior.

Foi em qualquer momento próximo a tranquilidade retornada que se deu o desespero! O ônibus estava passando por um lugar que ela nunca vira antes. O ônibus de todo dia da rota de todo dia.

O coração disparou e uma sensação terrível inundou seu peito. Levantou já quase sem consciência do que estava fazendo:
- Esse ônibus é qual? - perguntou pro rapaz da blusa cinza.
Ele levantou a cabeça de um suposto sono, olhou pra ela tranquilo:
- Relaxa, esse ônibus mudou a rota há pouco tempo.
- Como assim "mudou a rota"? Ele devia ter virado na rua lá atrás.
O rapaz olhou pra ela e percebeu o desespero. Era tarde; ela era menina; ele ficou um pouco apreensivo por ela.
- Ele vai dar uma volta maior, mas vai voltar depois. Ele passa na pracinha atrás da igreja depois vai pro ponto final.
- Ele não passa mais na rua do supermercado?
- Não, mas a rua atrás da igreja é perto. Eu te mostro o ponto onde você tem que descer.

Ela ficou um pouco mais tranquila e foi quando percebeu que estava falando com o ex-assassino-mendigo de momentos atrás. Sentou-se, mas continuou atenta no caminho, um pouquinho aflita.

O rapaz pensava em ajudar. Viu o desespero dela ainda permanente no rosto. Pensou, então, que nada custava acompanhá-la até em casa. Afinal, teria que andar depois coisa de seis, sete quarteirões no frio. Nada demais. Esperou pelo momento certo de ofertar, e esse momento seria, segundo ele mesmo, pouco antes do ponto dela.

A viagem prosseguiu, ambos tensos. Até que o rapaz a chamou:
- Ei, moça. Seu ponto é o próximo...
Ela levantou-se dando sinal. Ainda tentando olhar para fora e se localizar.
Ele apontou pela janela mostrando uma rua.
- Você vai seguir essa rua até a igreja, viu?!
Ela olhou e pareceu ainda mais preocupada.
- Se quiser, posso te acompanhar até em casa. - disse ele.
- Não, que isso. Não precisa.
- Bom, você que sabe. - voltou a se recostar no último banco e pareceu realmente não querer insistir. Na verdade, o "não precisa" foi tudo que precisava ouvir para achar que tinha feito o suficiente.
O ônibus foi freiando e se aproximando da parada. A menina agora estava em dúvida se gostaria que o rapaz a acompanhasse. Ela temia tudo naquele momento, quase em estado de pânico, não sabia o que fazer.
- Ei, moço... - falou e olhou pra ele com a mesma cara de desespero de antes, pedinte.
Ele olhou de volta e não deixou que ela falasse mais nada.
- Vamos. - levantou no mesmo instante em que o ônibus parou, colocou a mão nas costas dela e empurrou levemente em sinal de "vá na frente".
Ambos desceram, a porta se fechou e o ônibus seguiu viagem.
Ela olhou para frente, não conseguia encará-lo. Estava sentindo um misto de vergonha e medo. Definitivamente não sabia o que fazer.

- Onde você mora? - ele perguntou.
- Ali na frente. - ela disse.
Os dois começaram a andar pela rua deserta. O ponto onde desceram era na frente de um terreno baldio sem calçada, apenas um meio fio descontínuo delimitava o que era rua do que não era. Andaram por uns metros em silêncio, até virarem a esquina na outra rua. Essa nova rua era menos hostil. Algumas casas e árvores faziam da rua um corredor largo de muros e folhas. Os postes iluminavam fracamente por entre as árvores, e embora o ambiente parecesse menos cruel, aquela pouca luz trazia à memória todos os filmes de terror que ela havia visto e odiado. "Mocinhas em pânico correndo de homens psicopatas maníacos!".

- Relaxa, moça. Não vou te matar. - disse o rapaz com um sorriso no rosto em tom quase brincalhão.
Ela ruborizou e olhou para ele replicando rapidamente.
- Mas eu nem disse nada.
- Só que está preocupada como se estivesse mais com medo de mim do que da situação. Se soubesse que iria ficar assim, teria seguido viagem.
Ela olhou pra ele, com ar de arrependida. Só ar, não tinha arrependimento suficiente ponderado para estar arrependida de verdade. A adrenalina nela estava a toda e não a deixava raciocinar direito.
- Desculpe, não queria parecer ingrata.
- Nada, não estou ofendido. A idéia era fazer você chegar em casa mais tranquila se eu a acompanhasse. Mas pelo jeito deu na mesma.
- Não, não... Eu estou mais segura agora. Sério. Desculpe por te julgar mal.
- Se eu fosse uma menina perdida na meia-noite também teria medo de tudo. E, provavelmente, também teria medo de mim.
Ela riu. Finalmente. Ele se sentiu bem. Finalmente. Ambos andavam, a casa dela se aproximava e o mundo não parecia mais maldito.
- Você já conseguiu o que quer? - perguntou ele, de repente.
- Ahn? Como assim?
- Você já conseguiu o que você busca na vida?
- Ah, que pergunta! - disse quase gaguejando - Sei lá, ainda sou muito nova. - buscava com o olhar além-horizonte uma resposta, parecia vasculhar toda a mente - Não sei bem... Quero muitas coisas.
Eles andaram mais um pouco e pararam em frente a um prédio humilde de três andares. Isso se deu em poucos segundos.
- Então fica tranquila, você vai ter tempo pra consegui-las. Eu salvei você essa noite exatamente pra isso. - disse ele rindo.
Ela riu também.
- Não, sério. Muito obrigada - disse sem jeito - Muito obrigada. Cara, tou com vergonha, fiz você descer do ônibus só pra me trazer - de repente, ao falar essa frase toda, ela sentiu uma familiaridade inexplicável no rapaz, uma confiança estranha. O jeito que ele falava, andava, passava uma segurança que a atraiu.
Ela olhou para o rosto dele e viu uma beleza inexplicável. Não havia reparado antes nisso por todas as preocupações anteriores, mas agora, mais calma, ela se sentia atraída. Tudo isso, de uma só vez, fez seu coração disparar.
- Você não me fez fazer nada. Desci porque eu quis. Nem esquenta.
Olhou novamente para ele. Agora ela não queria que ele fosse embora, queria conhecê-lo. Ela estava confortável. A noite estava bela, um frio gostosinho. A rua tinha um ar de filme de romance europeu. Tentou falar alguma coisa, mas só conseguiu imaginar.
- Bem, vou indo. Prazer te conhecer!
- Não, espera. Tá tarde, eu vou ficar preocupada com você.
- Nada, eu me cuido.
- Não, cara. Quando você chegar em casa me liga, por favor, só pra eu saber que você chegou bem.
- Tá, pode ser. Qual seu número? - perguntou tirando o celular do bolso.
- Anota aí. É 3221-0203.
Ele apertou teclas e mais teclas... E finalmente:
- E seu nome? Nem sei.
- É, nem falei. Aline, prazer. - estendeu a mão pra ele.
Ele anotando estendeu de volta, ainda olhando pro celular.
- Prazer. - falou disperso.
Acabou, guardou o celular na bolsa, - agora vou indo.
- Ei, espera! Você não me disse seu nome.
- Marco. - disse já tomando o caminho.
- Tchauzinho. - ela falou com um sorriso no rosto.

- Tchau. Prometo não matar ninguém pelo caminho. - disse rindo e se afastando.


  Continua: parte II

domingo, 2 de agosto de 2009

A Mudança

(DESCRIÇÃO DO MUNDO) Quando comecei isso, decidi pelo formato de "livro" porque achei que assim eu escreveria sempre, já que tenho problemas sérios com qualquer tipo de atividade pendente.

(COMPLICAÇÃO) Porém, cai em uma armadilha. Uma daquelas que armamos por qualquer escolha trivial impensada. Infelizmente, por querer fazer de meros devaneios um livro, acabei podando e direcionando sobre o que eu deveria pensar e escrever. Logo me cansei de tentar trilhar esse caminho tão rígido, uma ponte de madeira massissa suspensa a muitos metros em altura mortal.

(SEGUIMENTO) Depois que me perdi nas lufadas mentais por todo o período de férias, perdidas entre tanta falta de sono e de saúde, juntei tudo, digeri tudo e finalmente concluí. A conclusão, no entanto, pareceu tão acolhedora que se extendeu até agora e me fez duvidar da sua existência. E por tudo isso, decidi escrevê-la por aqui, abandonando a idéia de livro e voltando ao dilúvio previsto inconscientemente no título.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Capítulo 1: Projeções - II. Dos Novos Seres

(originalmente postado em 2008-outubro-30: fotolog e intitulado "Perpétuos")

II. Dos Novos Seres

Da primeira vez que sofri e senti meu corpo se destruindo sem ferida qualquer em sua carne, dei meu tempo e aprendi.

Impressionante foram as vezes que isso se repetiu e as coisas para as quais cresci. Em certo ponto, lembro-me de ter parado, olhado para trás e desejado ter sabido tudo aquilo um pouco antes e sido uma pessoa melhor. Nunca me iludi que isso aconteceria, mas quis ter um filho pra ensinar tudo que eu aprendi e fazer dele a pessoa que um dia eu quis ser.

Imaginei uma homem muito melhor que seria e faria tudo que eu mesmo não consegui.

Quando me tornei um pouco mais velho, percebi o egoísmo do meu pensamento. Um mero desejo de ter uma vida nas mãos e fazer com ela o que bem entendesse, não me importando realmente com o que esse novo ser quereria.

Uma tentativa de dar continuidade aos próprios desejos e de alguma forma permanecer vivo.

As boas relações com o próximo nos fazem perpétuos, e não esse egoísmo em gerar pequenos seres que devem ser de alguma forma nossa continuação; nos quais buscamos provas de ter passado adiante nossos dados genéticos (tentando achar as semelhanças pais-e-filhos).

Não contentes, ainda tentamos dizê-los o que fazer, quando poucos são os capazes de afirmar o que fazer com a própria vida sem serem medíocres.

Não aceito continuar esse ciclo só porque um dia me disseram que é assim que deve ser; ouso ir contra a natureza nesse sentido, por toda deturpação que o homem fez dela.

Contudo, mais porque ainda não me considero suficientemente grande ao ponto de atuar o papel de pai como acredito que deve ser feito, e ainda duvido ser capaz disso em apenas uma vida pelo sentimento de liberdade que grita dentro de mim.

Capítulo 1: Projeções - I. Da Música

(originalmente postado em 2008-setembro-27: fotolog e intitulado "Music")

I. Da Música

Só procuro por paz de espírito.

Espero não morrer agora, quando ainda tenho tanto pra aprimorar.

Se me perguntassem, nesse momento, o que pretendo com tudo isso, falaria um simples "não sei" com um sorriso no rosto, despreocupado.

Tudo isso é apenas uma forma de externalizar o bem que eu sinto, que gostaria de compartilhar, e quem sabe, um dia, deixar marcado no tempo para todos.

Então, enquanto ainda sou incapaz, procuro aprimorar até o ponto em que minhas limitações sejam apenas as da minha criatividade.
Esperando por esse tempo, me abrigo nas obras dos outros, que confortam meu espírito e me deixam acreditar.

Não quero de nenhuma forma atingir a genialidade ou a fama.
Também nunca me preocupou de verdade o que os "outros" vão dizer.

Mas, se ao menos alguém me ouvir e parar por alguns segundos, encontrando algo diferente dentro de si mesmo, em qualquer ponto do futuro, então retribuirei o que todos os criadores fizeram comigo.

Só espero não morrer agora, nem me tornar pretencioso.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Prólogo III: Ininterrupto

(originalmente postado em 2008-novembro-01: fotolog e intitulado da mesma maneira)

Quando me diz, afinal, cada uma dessas palavras que me iludem, e que me deixo iludir por sempre acreditar no melhor, às vezes enxergo esse veneno destilado quase sempre sem maldade, ou com essa maldade ingênua.

Acordo pra esse tempo, que não cessa, como o coração que não descansa desde o momento em que nasce até o momento em que dorme para sempre, nas férias eternas.

E vendo isso, afirmo com toda certeza, que pelo menos nos últimos cinco anos que vivi, cada 365 dias passados valeu como uma vida toda. Tamanha experiência que consegui acumular, nem sempre boa, contudo nunca realmente ruim a ponto de apodrecer a alma que aqui habita.

Continua tão incessante e incansável, mergulhando tudo para cada vez mais fundo que, não fosse pelos pontos marcados que ainda consigo ler ou lembrar de coração, teriam se perdido como tantas pequenas ações que há muito naufragaram.

Continua ainda, e põe no meu alcance de visão o infinito que ainda resta passar por mim.

Rio, às vezes, de alguns fatos consumados e de algumas ironias dilacerantes. Rio, quase sempre, do juiz cruel ser na verdade quem mais me fez bandido; de ver no criador a face que mais precisa de cuidados; e, por fim, de ver em mim mesmo a mudança que beira a descaracterização do meu personagem no tear dessa história.

As únicas palavras que ainda repito: "NÃO ESQUECER!". Delas me lembro sempre, e de vez em quando as falo em voz alta, difícil é lembrar o que o conselho delas tenta preservar.

Mas, quando finalmente consigo ver todos os caminhos que percorri, por completo, ao mesmo tempo, não consigo sentir outra coisa senão felicidade e satisfação.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Prólogo II: Devaneio Perdido

(originalmente postado em 2008-out-08: fotolog e intitulado "Walking")

Por toda tristeza, amava de menos.
Pelas inúmeras quedas, temia demais,
Pela repetição, envelheceu mais rápido.

Por ser caridoso, não tinha mais tempo.
e todos que esperavam, se decepcionavam.

De todo dinheiro guardado, fez desejos com cada centavo.
Com todo seu sono, o café era de menos.

Com pressa, as pernas se ultrapassavam...
Mas nada nem ninguém se importava.

De toda corrida, conquistou seu último lugar.
Da sua bondade, sobrou quase nada.
De cada gota que descia, uma era de sangue.
De cada gota que sorvia, nenhuma aproveitada.

Nenhum dos golpes despendidos acertou.

De cada sorriso, um era falso.
A cada minuto, um choro escondido.
A cada pessoa, uma era agradada...
A cada amigo, um era perdido.

E quando nenhum dos golpes recebidos errou,

Sob um sol forte,
sem deixar vestígios,
solitário, morreu.

Prólogo: Foto Mental

(postado originalmente em 2007-nov-07: fotolog e intitulado "No Worries")

Às vezes, quando já é tarde da noite e eu ainda estou acordado, parece que o mundo todo é familiar.

No silêncio, quando todos descansam.

Abro a janela e não há ninguém na rua. Alguns carros e a luz dos alarmes piscando, os postes e o mar.

Fico na sala sozinho, ouvindo o barulho do mar, no escuro - que nem é tão escuro pois há luz na rua.

o vento forte que entra e balança a cortina. Eu não consigo ir dormir, porque naquele momento, em que tudo desanda e fica mais calmo, eu consigo ouvir meus pensamentos. E mesmo que logo pela manhã hajam tantas coisas pra fazer, responsabilidades pra cumprir, não importa muito. Porque nesse momento eu já cumpri tudo que o dia me impôs. Acabou, passou. Estudei, trabalhei, corri, treinei. Passou, e finalmente posso sentar com calma.

Eu não estou ali na sala, nem na casa, nem na cidade. E logo estou de novo. Passo pelas janelas e posso entrar em qualquer outra, de qualquer prédio, de qualquer andar.

Tudo parece perto. Tudo parece certo.

E enquanto eu fico divagando e saboreando cada minuto lentamente, lutando contra o sono, eu estou bem.

Nesses dias que eu não durmo quando minha cama chama. Nesses dias que não há nenhum barulho na rua. Nesse dia familiar.

Índice: abertura

Quanto mais agora que quero escrever, e mais, reescrever.
Então, a princípio, vão os textos antigos... Futuramente, os que serão novos.

O índice se resumirá em:
1. Passado
2. Presente
3. Presente para Passado
4. Presente, repete o ciclo

Teoricamente infinito, pelo menos enquanto eu durar, ou durar minha vontade.