terça-feira, 5 de maio de 2015

História II / parte I

"Algumas noites simplesmente são mortas", era o pensamento ecoando na cabeça. Estava frio e tarde, as ruas desertas e todos descansando, exceto os semáforos que persistiam em controlar o fluxo fantasma. Era um longo e tedioso caminho. Chegou na principal, parou e esfregou as mãos enquanto encarava a larga avenida. Por fim, preferiu tomar a passarela que arriscar um encontro com algum motorista entorpecido. Sem ânimo algum, subiu as escadas de metal ouvindo os sapatos contarem os degraus. "Sem dúvida, mais uma noite morta!" Porém, assim que deitou os olhos no caminho suspenso, o coração sufocou a garganta. As pernas travaram para deixar a cabeça disparar e tentar entender o mais rápido que pudesse. E, finalmente, a situação se apresentou: uma mulher, do lado de fora do parapeito, olhando fixamente para a queda. O rosto era familiar. Ainda paralisado, corria desesperadamente por todas as decisões que poderia tomar. Ele sabia que teria que tentar alguma coisa. O vento frio e implicante provavelmente abafaria os passos até lá. Decidiu não gritar ou falar, apenas agarrá-la rapidamente quando estivesse próximo o suficiente. Começou a jornada lenta e ansiosa, tentando ser o mais leve e o mais invisível que a física permitisse. Manteve o passo firme e calculado, mesmo com o peito atropelado e o gelo flutuando no estômago. Imaginou a cena de como puxá-la várias vezes, decidiu todos os movimentos ao longo do caminho. Faltavam poucos metros, ela estava imóvel desde o início, só que algo no jeito dela mostrava que não havia hesitação. Ele sabia que tinha pouco tempo. Aproximou-se mais, lentamente para evitar barulhos. Foi quando ela falou: "Não vá tentar nada idiota!" Congelou surpreso, abandonou todo o plano e a encarou. Ela se voltou para ele, "Eu ouvi você subindo a escada. Por favor, só vá embora. Eu prometo esperar até você ter desaparecido da vista."

Ali, olhando para o rosto dela, reconheceu que era aquela garota que ia dançar sozinha. Tomou coragem: "não! E-eu sei q..." Ela interrompeu, "por favor... Por favor, não estrague meus últimos minutos." Ele titubeou uns instantes, "que escolha eu tenho?! Agora não dá mais para simplesmente ignorar." Ela olhou para o céu, suspirou cansada e olhou de novo para ele. "Desde quando isso é da sua conta?! Não quero espectador." Ele colocou as mãos no bolso da jaqueta e deu um passo a frente, "não vou deixar você fazer isso." Ela fechou a expressão, mas manteve a voz calma, "com que direito você acha que pode me dizer o que fazer? Até onde eu sei, a escolha do que fazer com minha vida ainda é minha."

Ele nunca esperaria frases tão lúcidas e decididas. Não sabia o que falar para evitar aquilo. Ela estava realmente determinada, não aparentava nenhum medo ou angústia. Então, o que ela estava esperando?

"Não é como se eu estivesse desesperada, fica tranquilo. Eu estou bem consciente do que estou fazendo. Simplesmente, vá embora. Isso não tem nada a ver com você." Aflito e sem saber o que fazer, ele respondeu sem controle. "Eu escolho com o que quero me importar! Do mesmo jeito que você escolhe o que fazer com sua vida eu escolho o que fazer com a minha... Nesse momento, eu quero me importar com você." E deu mais um passo a frente, ela estava quase ao alcance dele. Ela se virou, baixou o rosto e olhou a rua. "Eu poderia fingir que desisti e fingir que fui embora, mas quando você estiver longe, eu vou voltar de qualquer jeito. Por que eu preciso fazer tudo isso só para te agradar? Você não acha que me fazer interpretar esse papel é egoísmo da sua parte?!" Ainda se sentindo incapaz, com a voz angustiada ele continuou, "não, espera! Uma chance. Eu só quero uma chance para te fazer mudar de ideia. Se eu falhar, eu deixo você em paz com suas escolhas." Sabia que era uma proposta ruim e sabia que ela nunca aceitaria. Adiantou-se e conseguiu continuar antes de qualquer protesto: "só que eu tenho certeza que você não vai mudar de ideia, já estando do lado de fora do parapeito. Por favor, uma conversa aqui, no lado seguro. Que diferença faz para você alguns minutos a mais?"

Ela se virou e passou uma perna para o lado de dentro, jogou o peso para o pé da passarela e começou a levantar a outra perna enquanto falava, "não vou te dar chance alguma, só quero mostrar que eu estava certa. Então, vou seguir o roteiro até você se sentir confortável e finalmente ir emb..." Quando acabou de passar a outra perna pelo parapeito, ele correu e a abraçou forte. Um abraço sufocante e aliviado. Ela tentou empurrá-lo enquanto reclamava, pedindo para largá-la, mas apagou antes que conseguisse qualquer sucesso.

Sentiu o peso dela entregue totalmente para si e se assustou. "Ei!" Segurou-a nos braços e se ajoelhou na passarela. Percebeu que ela estava queimando em febre. Procurou nos bolsos da calça dela pelo telefone ou carteira, em vão. Percebeu que a garota estava descalça, usando apenas uma regata fina e uma calça de corrida. Sentou-se no chão, deitou-a sobre as pernas, tirou a jaqueta e vestiu nela. Sem saber o que fazer, ficou em pé com ela no colo. Sem consciência, ela estava muito mais pesada do que ele esperava. Passou os braços dela pelo pescoço, se abaixou, a encaixou nas costas e se levantou de novo segurando as pernas dela por baixo. Ainda não sabia muito o que fazer. Começou a caminhar enquanto tentava se lembrar das vezes que a viu, da magia da primeira e do observar de todas as outras, e em nenhuma delas havia alguém, algum amigo ou conhecido, falando com ela. Talvez o barman soubesse de alguma coisa, só que essa era uma opção para um outro dia. Teve receio de uma visita ao hospital, sabe-se lá o que ela falaria dele quando acordasse. Decidiu então ir para casa.

No meio do caminho, sentiu a água fria no rosto. A chuva que começou sem aviso se intensificou de repente. Parou, com dificuldade jogou o braço para trás, por cima da cabeça, e tateou procurando o capuz da jaqueta. Puxou e cobriu a cabeça da garota. Segurou novamente as pernas dela, empurrou-a mais para cima das costas com um movimento brusco, depois apertou o passo. Quando finalmente chegou em casa, gotejou o chão mais que a chuva lá fora e percebeu que ela tremia, incontrolável.

***

Ela abriu os olhos e se assustou ao olhar para o teto desconhecido, iluminado pela luz da janela aberta. Sentiu o corpo pesado e exausto. Não fazia ideia de onde estava nem do que tinha acontecido no dia anterior.

Uma voz feminina invadiu o quarto. "Finalmente acordou! Como tá se sentindo?" Ela se achou em uma cama, coberta com lençóis claros e quentes. Virou-se para o lado e viu uma jovem sentada em uma escrivaninha, olhando para ela com um rosto aliviado. Decidiu se manter em silêncio. A jovem se levantou juntando os cabelos loiros em um rabo de cavalo e continuou - "Não sei se você lembra de alguma coisa. Eu cuidei de você ontem a noite." - abriu o grampo com a boca e prosseguiu - "Mas aparentemente não era nada grave, você estava bem melhor pela manhã." Então, sorriu amistosa e se apresentou: "Sou Bianca, sou vizinha do Igor. Essas roupas que você está vestindo são minhas. E não precisa se preocupar, eu cuidei de você sozinha, ele ficou de castigo no quarto dele", riu brincalhona. "Pensando bem, ele não me disse seu nome. Como você se chama?" A garota respondeu quase sussurrando: "Kin". A conversa se interrompeu pelo barulho da chave abrindo a porta da sala. Bianca se voltou para a saída do quarto. "O Igor chegou com as compras. Bem..." Olhou de volta para ela, "vou indo. Tenho prova amanhã e preciso estudar. Se eu continuar aqui, vou acabar relaxando mais do que devo. Foi um prazer, Kin, se cuida, viu?!" Pegou os livros da escrivaninha, a bolsa pendurada da cadeira e deixou o quarto.

Kin ficou em silêncio e tentou se lembrar do que aconteceu depois da passarela. Contudo, se distraiu com a conversa dos dois na sala e, logo depois, ouviu a Bianca se despedir e sair pela porta. Ouviu o barulho das sacolas de compras, portas de armários rangendo, o motor da geladeira aberta e imaginou tudo que ele estaria fazendo. Não sabia bem como reagir àquela situação, apenas sabia que nada daquilo estava certo. A única vontade era sair dali assim que pudesse, apesar do corpo cansado e da sonolência. Fez mais um esforço para tentar lembrar da noite passada, traçou algumas teorias possíveis, mas não conseguiu nada concreto. De tão cansada, não sabia se estava realmente no controle das imagens que criava ou se estava apenas sendo conduzida por um sonho semi-consciente.

Igor entrou no quarto e a salvou do exército de dimensões possíveis que começaram a cruzar a mente dela. "Bom dia!", falou segurando uma caneca em cada mão. Ela voltou para a realidade e lançou um olhar de desprezo para ele. Levantou levemente as canecas e, quase gaguejando, perguntou se preferia chocolate quente ou café. Kin se recostou na cabeceira da cama, respondeu apenas "café", pegou a caneca que ele estendeu e continuou encarando discriminadamente. Desconfortável, ele bebeu um gole do chocolate e pediu desculpas. Depois de se apresentarem, ele explicou tudo que tinha acontecido ontem e pediu desculpas de novo. Cada vez mais desperta pelo café que bebia, ela ouviu em silêncio e, quando ele finalmente terminou, concluiu: "Seu café é bom, mas não muda o fato que você me sequestrou."

"Não! Sequestro?! Calma, eu só te trouxe para cá no impulso, porque você estava mal. Você pode ir quando quiser", respondeu de reflexo, num tom surpreso. Ela esboçou um leve sorriso, entregou a caneca já vazia para ele e se descobriu para levantar. Ele interveio: "Calma, você ainda não está em condições." Ignorando qualquer aviso, ela se ergueu, sentiu a perna fraquejar e desabou zonza, sentada na cama. Pelo menos, por mais algumas horas ainda estaria presa ali. Sentiu frustração com o próprio corpo, tantos anos de esporte e boa alimentação para ser deixada na mão num momento como aquele. Esfregou as pernas e olhou para ele, que estava totalmente perdido sem saber como reagir. Ela ouviu o inspirar que precede a fala e, antes que ele tentasse qualquer frase, se antecipou: "Isso é culpa sua! Eu nunca precisaria passar por isso se ontem você tivesse respeitado minha paz." Igor arrastou levemente a cadeira da escrivaninha e a colocou virada frente à cama, sentou-se, bebeu mais um gole da caneca. "Que tipo de paz tem alguém à beira de uma queda sem volta?", conseguiu, finalmente, se exprimir em um tom razoável. "Por que você acha que entenderia?! Acreditar ser capaz de entender todos os sentimentos é muita presunção. Se você só respeita alguém depois de conseguir entender exatamente o que se passa por dentro, então você é apenas uma criança curiosa que machuca os outros sem qualquer sentimento de culpa." Ela podia estar cansada, mas estava bem sóbria. A mesma sobriedade ríspida da noite anterior. Ele havia se posicionado, se preparado, mas antes de começar a discussão, já se sentiu vencido. Ficou em silêncio por uns momentos e recomeçou com uma pergunta: "O que você vai fazer quando sair daqui?" Ela olhou nos olhos dele sem nenhuma hesitação, "Terminar o que você interrompeu."

Por muito menos, ele já teria desistido. Esse nunca foi o papel dele ao longo dos anos - resolver conflitos. Todos os embates que o atingiram até agora, só os sobreviveu pela indiferença. Perguntava-se o porquê de persistir. Ela estava certa, ele era o intruso. E, por mais difícil que fosse ignorar aquela situação, ele sabia que seria fácil esquecer, uma vez que tivesse optado por isso. No entanto, sentiu curiosidade para entender como ela estava tão convicta daquilo; como, numa situação tão extrema, ela se mantinha tão segura e decidida, tão diferente de tudo que ele era. Essa curiosidade, de tão intensa e inconsciente, permitiu que ele continuasse. A vontade de satisfazê-la era maior que tudo que ele quisera saber até ali.

"Não tem ninguém para sentir sua falta? Você acha isso justo com essas pessoas?" Depois dessas perguntas, a frieza da expressão e da fala dela diminuiu. Pareceu aceitar a situação que estava e querer ver até onde ele conseguiria chegar sem perder o controle. "Injusto é esse interrogatório iminente que eu pressinto. Para equilibrar as coisas, vamos entrar em um acordo: para qualquer pergunta que você me fizer, eu tenho direito a fazer uma para você." Por alguns instantes, inocentemente ele sentiu esperança. "Feito", concordou quase feliz. Então, ela continuou: "Você já me fez quatro perguntas, descontando a escolha da bebida. Temos que igualar os pontos antes de continuar." Igor tentou recontar as perguntas de cabeça, ameaçou reclamar injustiça, mudou a expressão algumas vezes refletindo o conflito interno e, por fim, aceitou desanimadamente. "Tudo bem. Sua vez", e se preparou para o pior.

Ela começou, "como você se mantem vivendo nesse apartamento?" Ele ouviu e fez uma expressão de surpresa. Depois respondeu um simples "eu trabalho". Kin suspirou, "se não for para levar à sério, melhor a gente parar por aqui." Pensou que, realmente, aquela resposta não explicava muito, nem respondia de verdade a pergunta que ela fez. Parecia uma pergunta tão simples, mas encontrar uma resposta que deixasse ela satisfeita era complicado. Percebeu que teria que explicar que o apartamento não era dele, no que trabalhava e porque morava ali. "Quantas dimensões em uma pergunta!" De repente, se surpreendeu com o próprio pensamento e viu que, sem reparar, estava jogando por ter concordado com regras tão simples. Não queria isso, a ideia não era ver quem dava a menor resposta ou a fazia a melhor pergunta. Decidiu simplesmente responder sem se preocupar muito com as conseqüências.

"Eu quis morar aqui porque queria estudar gastronomia. Meu tio é chef de cozinha e provavelmente a única pessoa que me apoiaria. Ele alugava esse apartamento e disse que se eu quisesse realmente vir, eu teria que dividir o aluguel e as contas. Acho que foi um incentivo para eu levar o aprendizado a sério. Meu pai é médico e queria que eu seguisse a carreira, mas quando eu era mais novo eu vi um filme que um pai de família tinha um restaurante e cozinhava muito bem, e todos gostavam dele, e essa vontade de ser um pouco que nem esse personagem apareceu e nunca mais passou. Hoje, meu tio é casado com uma cozinheira e juntos abriram um restaurante. Ele mora com ela do outro lado da cidade e eu fiquei com o apartamento só para mim. Alguns dias da semana eu trabalho com eles e o resto eu coordeno um bufê para um cerimonial perto daqui. O que eu ganho é mais que suficiente para me manter. Apesar de quê, às vezes, eu acho que é muito estresse para pouco, não era bem isso que eu tinha em mente quando decidi trabalhar com gastronomia. Mas lentamente estou aceitando os poréns." Impressionado com a própria resposta, tentou lembrar alguma vez que havia falado tão facilmente sobre o que fazia. As críticas constantes demoraram a sumir ao longo do tempo e, até hoje, ele fazia o máximo para evitar ouvi-las. Logo começou a suar e se sentir desconfortável, tinha se aberto demais e sem pensar. O coração acelerou para inflar ainda mais a estranha vergonha que sentia.

"Um chef! Acho que não conseguiria adivinhar", arrastou algumas curtas mechas de cabelo para trás da orelha. Não esboçou mais nenhuma reação para a resposta e sem deixar ele respirar por muito tempo continuou, "Qual seu maior arrependimento?"

"Arrependimento?! Calma, isso ficou sério rápido demais!" Sentiu o corpo inerte e sem resposta, que nem ocorrera algumas vezes na conversa da noite anterior. "Vai ver ela tem essa habilidade, de te desarmar e te pegar de surpresa." Suspirou tentando se acalmar, "eu não posso deixar isso me vencer, se eu quiser realmente convencê-la de alguma coisa, eu preciso mostrar ser mais forte que ela. Eu só preciso fingir que ela é a pessoa mais íntima que eu tenho no mundo e devo ficar mais calmo." Apesar desse pensamento, apoiou o cotovelo no joelho e depois o queixo na base da palma da mão, em silêncio, e assim permaneceu por algum tempo. Por fim, se reposicionou na cadeira e prosseguiu. "Mesmo depois de tanto tempo, eu ainda me arrependo de ter deixado um amigo partir sem ter falado tudo que eu gostaria. A gente tinha se desentendido feio e eu sabia que a culpa era minha. Acho que sempre fui um exímio destruidor de expectativas. Ele deve me odiar até hoje, ou pior, talvez seja totalmente alheio. A facilidade que as pessoas tem de se esquecer uma das outras sempre me impressiona. Depois disso eu prometi para mim mesmo que jamais permitiria que algo assim acontecesse de novo, mas já fiquei calado tantas vezes quando deveria ter falado que eu mesmo já não espero nada de mim." Fez uma pausa e de repente olhou firme para ela. "Exceto agora! Dessa vez eu vou dar tudo que eu puder para te fazer mudar de ideia."

"Boa sorte na sua tentativa. Vou esperar ansiosa para te mostrar o resultado." Sorriu com uma leve ironia, ainda assim verdadeira. Sentiu um pouco do cansaço de ficar sentada com as costas retas. Pegou o travesseiro, se recostou com ele na parede e cruzou as pernas. Quando voltou a encará-lo, percebeu uma determinação estranha no semblante.

Igor se sentiu singularmente confiante. Lembrar aquela história, visitar o passado por aqueles breves metros, permitiu que encontrasse uma coragem esquecida, soterrada pelo tempo. Prometera a si mesmo cultivá-la, porém apenas naquela hora conseguia lembrar o porquê. Ele a pegou e, conforme retirava a poeira e voltava a ver o brilho de novo, mais vontade teve de enfrentar e resolver aquilo. Vacilou brevemente antes de finalmente se arriscar e se abrir. Sem a indiferença habitual, a adrenalina transbordou uma euforia nova e revigorante. Permeou a garota incisivamente com os olhos, captando todos as minúcias que anteriormente se obrigou a ignorar. A noite que a viu pela primeira vez, dançando na pista perto da mesa de som, foi enfeitiçado por cada detalhe dos movimentos que ela usava para responder à música. A concentração naquela cena foi tão aguda que, ao repassá-la na memória, era capaz de recriá-la em câmera lenta e pausá-la em contemplação. As mechas leves do cabelo escuro, desenhando o ar e o tornando visível; a blusa um pouco úmida que exibia a pele saudável pelo decote; os olhos fechados dentro de um mundo só deles. Naquela noite, entretanto, rapidamente reprimiu toda esperança e desejo que podia ter por ela, na busca da autopreservação. Era mulher demais para ele. Em hipótese nenhuma, da árvore de possibilidades que enxergava, conseguia ver um caminho em que ela ficaria com ele. Sem qualquer tipo de arrependimento, encerrou a sensação de prazer que havia se permitido viver por aquele breves segundos, conformado com a derrota prévia. Encerrou-a tão bem encerrada que, em nenhuma das outras vezes que a viu, conseguiu alguma emoção além da identificação de um "rosto conhecido". Quando a reencontrou na passarela, mesmo ela ali ao alcance dele, não teve qualquer alusão ao que havia experimentado da primeira vez, sequer imaginou explorar uma outra possibilidade daquele ramo já podado. Mas agora, usando novos olhos para observá-la, removeu todas as barreiras descrentes para limpar a vista e extrair o máximo do que via. Acreditou na perfeição, se apaixonou. Sofreu um formigamento na nuca, o maxilar fraquejou sutilmente e, de repente, estava perdido num sorvedouro tão intenso que ruborizou.

Ele a admirava tão atraído que a deixou ligeiramente desconfortável. Parecia absorto em pensamentos, distante dela e, ao mesmo tempo, próximo demais. Quando ela o viu ruborizar sem qualquer resquício de timidez, sentiu o coração pulsar mais forte e puxou os lençóis para cobrir o pijama curto que vestia, embora sabendo que ele não desviara o olhar do rosto dela em momento algum.

Precisava de mais tempo para conhecê-la: dois dias, talvez três. Uma semana! O tempo ideal, afinal, o restaurante do tio estava fechado por causa das obras e ontem havia feito o último bufê do mês, então mesmo o feriado terminando daqui a três dias, ainda estaria livre até o fim dessa semana. Não  importa o motivo que a movia para o fim do caminho: uma doença sem cura, uma falha irreparável, um peso maior que qualquer sustentação. Nenhum motivo, que ele tentara deduzir enquanto Bianca estava ocupada com ela, era suficiente para convencer uma desistência prematura. Ele reverteria os passos dela para que andasse, sem perceber, para longe do fim e para mais perto dele. Então, falou com uma sinceridade crua: "Sabe?! Na verdade, não tenho intenção de te deixar ir sem motivo." 

Surpreendida, percebeu que tinha perdido o controle da situação. Tentou confirmar, "quer dizer que estou realmente sequestrada?!" 

"Sim! Se você tentar fugir, vou ligar para a emergência e explicar a situação. Eles, com certeza, vão te internar. Agora que penso nisso, não sei porque tive medo de te levar para o hospital ontem! Vai ver, não quis te abandonar tão facilmente. Mas, deixando isso para lá, essa é sua situação."

Quase conseguiu ver a frustração entre as delicadas dobras da testa. Depois de um breve silêncio, a calma retomada na voz dela era exatamente o que ele esperava: "Existe algo que posso fazer para reconquistar minha liberdade injustamente roubada por você?"

"Claro. Eu quero uma semana da sua vida! Eu quero tempo para conseguir mudar sua ideia. E se, depois de uma semana, você ainda se mantiver decidida, eu te deixo em paz e prometo não te atrapalhar de mais nenhuma forma."

Ela sorriu levemente com o canto direito da boca. "Tudo bem", aceitou depois de uma breve pausa. "E ainda me comprometo a obedecer todas as coisas que você me pedir, para que depois não fiquem reclamações sobre minha má vontade e desculpas para estender o prazo." Olhou para o céu pela janela aberta, depois encarou-o novamente, "Mas, eu te dou apenas cinco dias."

"Cinco dias?" Repassou algumas vezes a frase que acabara de ouvir. "Obediência, o que ela queria dizer com isso?" Não entendeu porque cinco dias, porém quase riu de excitação com a proposta. Conteve-se e consentiu com a cabeça, sorrindo feliz.

"Depois de toda essa negociação, estou com fome. Deve ter passado de meio-dia. Já que eu não tenho dinheiro nem outro bem material, troco minhas últimas perguntas por um almoço do chef. O que me diz?!" Ele concordou novamente, mesmo sabendo que as duas últimas perguntas dele não foram respondidas de verdade. 

Seriam os cinco dias mais intensos da vida dele.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

get stuck to get free

O corpo era muito mais lento e pesado. Voltar àquela cidade, àquele lugar depois de tantos anos, trazia uma nostalgia grande demais para ser engolida em um pedaço só. Tudo estava tão diferente que achou estranho o sentimento tão confortável e íntimo. Lembrou das distantes férias de verão, do passeio que eles fizeram no dia nublado pela beira do rio e, de repente, as pernas o levaram para o passado. Sentiu algo quebrando dentro do peito, deixando vazar um líquido antigo e valioso, há tempos guardado. Vazou pela garganta e pelos olhos. Olhou para frente e a viu caminhando com as mesmas roupas, ouviu a risada leve e sentiu a mão puxando a dele, na pressa de chegar logo ali.

Não sabia quando foi que passou a ter tanto passado e tão pouco presente. Nem quando se perdeu e parou de sentir o mundo. Talvez era por isso que sempre tivera tanto medo de envelhecer. Era o receio de morrer antes do corpo, repetindo todos os sentimentos que já teve sem nunca criar um novo. E quanto mais continuava seguindo o caminho de anos atrás, mais queria sair dele. Só que era claramente impossível, porque aquela sensação, aquele desabafar sozinho era tudo o que ele tinha, era tudo que o tempo tinha permitido que ele levasse consigo. Era assim que viveria daqui para frente. Sem ela e sem ninguém, ele ouviria aquela música até que a natureza terminasse o trabalho dela.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

you and me

Com angústia, olhei para ela. A porta já estava fechada, eu não precisava mais suportar as pernas queimando. Simplesmente soltei o corpo e caí de joelhos. Apertei firme o cabo da adaga tentando respirar, só que tudo era muito. Muito cansaço, dor, ansiedade, alívio, amor. Beirava o impossível realizar qualquer trivialidade com a cabeça e o coração tão selvagens. Acima de tudo, minha visão submersa e distorcida me isolava ainda mais da consciência.

Desesperada, olhei para ela e agarrei a realidade mais uma vez. Todas as dúvidas, que ecoavam em mim, silenciavam quando eu lembrava de tudo que vivemos. Ela era meu porto seguro, minha protetora, minha sanidade.

E quando eu finalmente me sentia retomando o controle de mim, eu a vi desabar. De olhos fechados, ela escorou as costas na porta colossal e escorregou pela madeira até sentar no piso de pedra. O rosto dela, brilhando vermelho, me fez reviver o momento que as pedras odiosas voaram em nós, lembrar meu medo. A impotência me envolveu, senti meu rosto quente pelas lágrimas mudas. Ela abriu os olhos, olhou para mim e desenhou um sorriso cansado na boca. Impossível! Por que ela parecia tranquila naquela situação tão extrema? Comecei a descarregar todo meu instinto de defesa. "Você vai morrer, Ivy! Por que você insistiu?! Você sabia! Você sabia que a gente acabaria assim! Tudo isso é culpa sua!" Não consegui firmar mais a voz, parei para não sufocar e desfazer o nó na garganta antes que ele ficasse cego. Meu peito estava apertado. Falar aquilo e me escutar me machucou, mas era a verdade. Eu tinha tudo antes de tê-la. Agora, eu corria o risco de perdê-la, a única coisa que me restava. "Por que você precisa comprar briga com todo mundo? Por que você precisou comprar briga com o mundo?"

Ela tossiu e o sangue da garganta maquiou os lábios. Ela sorriu novamente e me olhou com ternura, de certa forma me dizendo que ela abandonaria a vida a qualquer minuto. Meus olhos se encheram, nada mais fazia sentido. Eu só queria me entregar, parar de jogar aquele jogo, acordar e estar em um lugar tranquilo, com ela em meus braços e um futuro feliz pela frente.

Foi quando Ivy respirou fundo, apoiou o braço na perna e se levantou. Eu ouvi os passos em minha direção e vi a silhueta inundada do corpo dela. Ouvi quando ela se ajoelhou do meu lado e ouvi quando ela suspirou relaxada. Fez um carinho gentil no meu rosto e me pediu desculpas, repetidas vezes, e me pediu para parar de chorar e ouvir. "Nunca foi minha intenção comprar briga, nem te arrastar para essa vida de fuga. Eu simplesmente quis me dividir com você, sem me segurar. Eu precisava viver o mais intenso que eu pudesse, aproveitar cada pequeno detalhe nosso. Porque quando você apareceu, eu não sabia que poderia experimentar os sentimentos que eu tive, nem sabia que me faria tão bem." Ouvindo aquilo, confiei de novo. Meu medo não diminuiu, mas meus atos recentes faziam sentido. "Mylla, a gente já conquistou muito mais do que esperavam de nós. Eu estou saciada. Diferente de você, eu não quero ser perpetuada na memória. Já usei tudo que queria desse mundo. A vida termina mais cedo ou mais tarde, e não me arrependo se a minha terminar em breve. O que eu tive já me valeu a pena." Ela então me abraçou forte e com a voz abafada falou: "Obrigada por tudo que você me deu. E por me fazer sentir amada."

Então chorei mais, dessa vez de uma tristeza reconfortante. Minha admiração por ela era gigante naquele momento e eu tive ainda mais sede por nós. Ivy me deu beijo macio e ferroso nos lábios, depois se levantou e caminhou até a janela. Viu as tochas no horizonte, se voltou para mim e terminou: "Não adianta mais fugir, nem há nada que possamos fazer. Eu quero morrer lutando ao seu lado... E te proteger até o fim.  Se fosse numa outra época, num outro lugar, conseguiria sonhar e imaginar um futuro diferente. Mas aqui e agora não existe sonho, eles nunca entenderão nós duas. Estamos sozinhas... Somos apenas você e eu... Contra o mundo."

terça-feira, 30 de setembro de 2014

simples

Afundou a cabeça nos braços sobre a mesa. Era mais tarde do que gostaria. Virou e olhou para a janela da sala. Os pequenos caminhos de água que as gotas criavam no vidro fizeram com que ela se sentisse exausta.

Suspirou angustiada com a hora, não queria deixar o amanhã chegar. Tantas coisas para fazer, outra vez. Levantou a cabeça e se endireitou na cadeira, estufou o peito e suspirou de novo, determinada. "Uma das grandes virtudes é saber quando é hora de encerrar o dia." Foi para o quarto, se jogou na cama e se preparou para o inevitável recomeço.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Edge

Ela começou a fuçar a bolsa dele. Abriu o zíper, descompromissadamente, enquanto ele conversava com os amigos logo ali. Depois disso, puxou a bolsa pela mesa até que estivesse bem pertinho dela. Levantou a parte de cima, olhou para os objetos dentro e pegou o estojo. Abriu e encontrou um estilete, com a lâmina embaçada de grafite dos lápis apontados. Ele ouviu o barulho do metal correndo e se virou. Ela se levantou enquanto ele vinha matar a curiosidade. Ela virou o estilete, lentamente levou a lâmina contra o pescoço dele e fez uma leve pressão. Ele a encarou sem medo e durante alguns segundos nenhum dos dois se moveu. Ele começou a forçar o pescoço para frente e aproximar o rosto dele do dela. Ela ficou surpresa e apreensiva, talvez ele se machucasse, mas ainda assim ela queria tentar pará-lo, ele estava perto demais. E continuava se aproximando. Quando os lábios dos dois estavam quase no toque, ele parou. Olhou o fundo dos olhos dela e levantou a mão. Ela sentiu um toque quente no rosto e a única cor do mundo era a branca. Ela estava leve e o coração doía. Ela piscou e acordou deitada em um campo verde. Se levantou e tentou achar a consciência, mas tudo que encontrou foi o Sol confortante contra a fria brisa que acariciava a grama silvestre. Achou também uma árvore de tronco largo e raízes pendendo ao ar livre, no limiar entre estar na terra e voando no precipício que abraçava todo o campo. A árvore mal conseguia se manter ali, ou até maestralmente bem, no entanto não se livrou de começar a cair junto com toda aquela ilha de terra cercada de ar por todos os lados. A garota sentiu o estômago entendendo a queda antes da mente. A gravidade, cruelmente indistinta, guerreou a terra e venceu, derrubando tudo inclusive a sensação de conforto de segundos atrás. O oceano abaixo então se abriu e cedeu espaço para o penetra pesado, reclamando ondas gigantes e para longe. A garota se segurou na grama, a única crina do imenso cavalo descontrolado, enquanto um raio partia as patas e a cabeça do animal sem vida. Meses se passaram, os braços se tornaram cidade de cãimbras e se moldaram em estátuas sem músculos flexíveis. O cabelo dela agora era a grama, as pernas eram raízes e de repente ela se viu florescer. Começou a crescer e se tornar tão parruda que conseguiu erguer novamente toda a ilha enquanto se alimentava do ar, da água e do solo. Se tornou uma árvore imensa e finalmente alçou vôo. Venceu os medos, as dores, as fraquezas e a gravidade. Piscou e olhou no fundo dos olhos dele. Ele afastou a mão do rosto dela e deixou que ela visse o sangue escorrendo do pescoço. Ele sujou a mão com o próprio sangue e espalhou na testa dela com um gesto descuidado. Ela se sentiu aquecida mais que o sol e teve certeza de que todas as certezas eram medíocres. Sentou na mesa. O ferimento se fechou lentamente recolhendo e bebendo todo sangue expelido. Era um pescoço saudável e limpo, sem qualquer vestígio, nem sangue, nem grafite. Era o crime perfeito. Ela seria eternamente jovem e bela.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

unattached

Aquele cara!

Desde que nasceu, ele simplesmente não se sentia parte de nada. Não conseguia se identificar com nenhum grupo que cruzava o caminho.

Não foi programado pela família e, talvez por isso, não se achava parte dela.

Não tentou ser filho, nem irmão, nem amigo. A grande preocupação dele não era assumir os papéis, mas encontrar as respostas. Era tão perdido que pular três vezes estava fora de cogitação.

Ele talvez tenha tentado pular mais do que devia e acabou encontrando muito de si e pouco do resto.

Só que quando se achou, finalmente, se achou diferente. Viu que não se encaixava em nada que o rodeava. Se sentiu sozinho e desapegado, e foi assim que aprendeu a se sentir confortável.

Não importava quem se aproximava, sempre se via de fora. Com o tempo, ao invés de tentar se encaixar, tentou individualizar as relações e nunca mais conseguiu se relacionar com grupos, apenas com pessoas. E em cada uma delas tentava encontrar um pouco de si e dar o máximo que pudesse, para se sentir útil e parte de alguma coisa.

Sem planos nem fronteiras, ele apenas seguiu em frente permeando tudo que tocava sem nunca se prender.

Um dia decidiu morrer. As pessoas não choraram, apenas lembravam dos poucos momentos que valeram a pena e sorriam de canto, enquanto outras sentiam alívio pelo término daquele corpo estranho à tudo.

domingo, 13 de julho de 2014

motion sickness

A maldita satisfação que extrapola a satisfação, que de tão grande se torna pesada. O estômago se contorce pedindo descanso, ameaçando jogar de volta tudo que ele tenta guardar.

É tanta satisfação que é quase o fim de algo sem fim. Falta de vontade de qualquer coisa, até de ter falta de vontade. Aparece um cansaço maldito e até descansar é cansativo.

O problema é quando tudo deixa de ser um problema e nada mais importa nada mais.

Essa satisfação, na verdade, é uma dor tão disfarçada que as pessoas costumam conseguir carregar por muito tempo, sem perceber. Só que sendo dor, ela priva os outros sentidos e reduz tudo a ela mesma e o que resta é apenas o resto de uma divisão inteira.

O problema é quando só existe um problema, insolucionável.